quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Serão estes os novos mártires da pureza?

Muita gente que escreve neste blog, muita gente que lê este blog, conhecia o Diogo Andrade e Sousa.
Quando nos morre alguém assim é impossível ficar indiferente, e o sentimento de revolta transforma-se numa arma, não numa arma qualquer - mais como o Oleandro, a flor com que São José leva no seu bastão.
Emocionei-me, novamente, com a história deles, agora num artigo da Graça Franco para a Rádio Renascença: Agradecimento pelos olhos do Diogo e da Tugce.
Sobre os olhos daqueles que veem. Sobre a coragem daqueles corajosos.
E estas vidas, e estas mortes, desperta-nos, a nós cegos.
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Recupero o seu nome numa busca da net: Diogo Andrade e Sousa. Faço-o porque, em Agosto, segui durante vários dias , através de alguns amigos da família, a angústia da sua morte.
Bastou 'googlar' "jovem de sucesso esfaqueado no Cais do Sodré" para reencontrar a história do arquitecto estrangeirado de 28 anos que, durante umas curtas férias em Lisboa, encontrou estupidamente a morte. Em mãos deixou os projectos nas Caraíbas em que estava a colaborar e uma vida recheada de amigos e promessas.
A perda do jovem talento foi notícia pela violência da morte: esfaqueado na zona do Cais Sodré, porque ousara defender uma amiga do assédio de um gangue.
A sua morte foi lamentada, sobretudo, pela perda inútil do seu reconhecido talento, mas a verdade é que Diogo não estava sozinho naquela movimentada rua na noite de diversão, mas fora ele a cometer a "loucura" de tentar intervir. E é por esse gesto de coragem que é exemplo de luta contra a indiferença e o medo que nos vai tolhendo.
Esquecera injustamente o seu nome e recupero-o hoje para o associar à homenagem que mais de 170 mil alemães (unidos numa inédita petição) pretendem prestar a uma jovem compatriota de origem turca reclamando que o Estado, a título póstumo, lhe entregue uma medalha de mérito reconhecendo-a uma espécie de heroína nacional. Coisa que até a senhora Merkel, já fez saber, também verá com muito bons olhos.
Quem era? Tugce Albayrak não viveu o suficiente para se transformar numa jovem de sucesso. A 15 de Novembro foi brutalmente espancada, no parque de estacionamento de um McDonald's, na pequena localidade de Offenbach, nos arredores de Frankfurt. Foi a consequência de ter, alguns minutos antes, contribuído para salvar duas jovens do assédio de que estavam a ser vítimas na casa de banho do restaurante.
Tugce não foi a única a testemunhar o crime que estava a ser cometido no interior, mas só ela teve a coragem de não fingir que não via o que estava a acontecer. Essa ousadia custou-lhe a vida. Brutalmente espancada, entrou em coma naquela mesma noite( tal como acontecera a Diogo depois de esfaqueado), e acabou por morrer mais de uma semana depois, no dia em que festejaria 23 anos.
Esta quarta-feira a mesquita de Wachtersbach foi pequena para acolher os mais de 1.500 presentes para as cerimónias fúnebres que um canal de TV alemão transmitiu em directo. O caixão coberto pelas bandeiras da Turquia e Alemanha seguiu depois para o discreto cemitério de Bad Soden-Salmunster, localidade de onde a jovem de origem turca era natural. Às cerimónias, que comoveram o país, assistiram o embaixador da Turquia e o governador do Estado de Hesse em reconhecimento pelo acto de coragem demonstrado.
Um dia antes do espancamento de Tugce já o jornal "El Mundo" dava conta dos resultados de um estudo sociológico levado a cabo pela organização sueca STHLM Panda . O estudo visava testar como reagiriam testemunhas acidentais a um caso de violência doméstica. A equipa de sociólogos colocou uma dupla de actores no interior de um elevador simulando uma discussão que começava numa troca de impropérios e acabava em violência física sobre uma jovem mulher. A cena repetiu-se por várias viagens, filmada por câmaras ocultas, e testemunhada pelos vários passageiros acidentais que não suspeitavam da simulação.
Os resultados da experiência foram desanimadores e mostram uma espécie de anomia social que talvez possa designar-se como a "síndroma de não querer ver".
Entre 53 pessoas que acabaram por testemunhar a cena apenas uma mulher ousou por fim à violência com uma ameaça: "Se voltas a bater-lhe chamo a polícia." Os restantes fingiram não ver.
À saída, confrontadas pelos sociólogos para explicarem a sua actuação, todas as testemunhas, todas sem excepção, se mostraram envergonhadas por não terem feito nada e aliviadas por ter sido apenas uma experiência. Dá que pensar. Juraram não repetir.
É por isso que Tugce e Diogo merecem que lhes agradeçamos terem tido "olhos" que não fingiram não ver e com isso nos ajudarem a manter abertos os nossos! Obrigada
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3 comentários:

Alice Cabral disse...

Muito bom!

Catarina Nicolau Campos disse...

Querida Dita, conhecia o Di e tinha de facto um coração do tamanho do mundo.
No local em que foi morto um anónimo pintou a sua cara na parede, em jeito de grafitti. O Diogo ainda está lá, porque o Bem é indelével.

M. dita disse...

É isso mesmo cate.
Alice sabia que ias gostar do tema :)