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segunda-feira, 10 de abril de 2017

O casamento não traz felicidade | Por Henrique Raposo

Henrique Raposo fala da grande maratona da vida: o Casamento, claro e pertinente: o que é o amor, o que é a entrega e o que é a paixão: vale a pena ler:


Não há casamento sem sacrifício pessoal. Os primeiros anos dos filhos, por exemplo, são anos de trincheira.O amor não é fofura, é ringue de boxe.

Pensar que o casamento é sinónimo automático de felicidade é talvez o grande erro da minha geração. O “feliz para sempre” é um equívoco, porque transforma o casamento numa sala de chuto de afectos, fofuras e sonhos. Pior: transforma o casamento real num prolongamento de um casamento idealizado ao longo do namoro. Ou seja, o “feliz para sempre” é a eternização da paixão adolescente. Um sarilho, pois o casamento é outra coisa, é uma aliança entre duas pessoas que se amam para lá dos afectos flutuantes.

Quem é casado sabe do que falo: há anos bons e há anos maus. Se pensarmos apenas na nossa emoção, no nosso prazer, na nossa realização pessoal, há momentos muito duros no casamento. Não há casamento sem sacrifício pessoal. Os primeiros anos dos filhos, por exemplo, são anos de trincheira.

A relação do casal e o próprio trabalho vão para o banco do pendura, ao volante ficam as fraldas, os banhos, as birras, as noites mal dormidas, a inexistência de férias ou viagens, etc. Mas são estas alturas sacrificiais que definem a força de um casamento. O amor não é fofura, é ringue de boxe.

Hoje procura-se a felicidade no sentido do prazer imediato e pessoal. E espera-se que o casamento seja um fornecedor desse prazer centrado no “eu”: os filmes e as séries da HBO que o casalinho vê no sofá, o sexo, as viagens que o casalinho anuncia no Facebook, os concertos e festivais de verão, etc. Sucede que o casamento não é esta passerelle.

Como diz Tiago Cavaco no livro “Felizes para Sempre e outros equívocos”, o casamento implica “abdicar de coisas que nos agradam”. O casamento não é sobre nós, é sobre os outros que nos rodeiam. Nós não casamos para sermos felizes, casamos para fazer os outros felizes. O casamento não é um espelho do nosso prazer, é um pilar de outras pessoas: é um pilar dos filhos que geramos e criamos, por exemplo. E, se é um pilar de infâncias, também é um pilar de velhices: um matrimónio também é um amparo dos sogros que se herdam.

Ora, ser este pilar implica um espírito de renúncia que é a negação perfeita da nossa cultura centrada numa felicidade entendida como prazer. É por isso que temos uma taxa de divórcio de 70%. É caso para perguntar: apenas 30% dos casados da minha geração compreendeu que o casamento é o início da vida adulta e não um prolongamento da adolescência?

Moral da história? É importante refazermos o conceito de felicidade. O casamento ensina-nos a procurar a felicidade nos outros, nos filhos que crescem, na ajuda que se dá aos sogros, na ajuda que se recebe dos sogros, nas provações que se superam em conjunto – as ânsias profissionais, o aperto na carteira, as querelas familiares, a unha do pé encravada, a quimio, aprender a lidar com o feitio do outro, etc. Se quiserem, o casamento comporta a felicidade tal como o maratonista a entende.

Quem já fez ou faz atletismo sabe do que estou a falar: correr longas distâncias não dá prazer; ver um filme, ler um livro, estar na praia, beber um vinho – tudo isto dá prazer. Mas correr 40 km não dá prazer, dá dor. Porém, quando acabamos uma corrida assim, sentimos algo que está para lá do prazer, sentimos uma força que vem do princípio do tempo, sentimo-nos abraçados por uma força que vem do tempo em que coisas ainda nem sequer tinham nome.

terça-feira, 14 de março de 2017

Marca n'Agenda: Meeting Lx 2017 - 23 a 26 de Março, Campo Pequeno




São conferências, são exposições, e são encontros improváveis: o Meeting Lisboa nasceu há 5 anos e não parou desde aí. Já passou pelo CCB e este ano regressa ao Campo Pequeno, com o tema "Do amor ninguém foge".

De onde vem o tema? É o lema da APAC, uma associação brasileira de recuperação de prisioneiros sem prisões. Sim, leu bem, estes presos são livres e é assim que se sentem recuperados e voltam a tornar úteis para a sociedade, com taxas de reincidência baixíssimas quando comparadas com o sistema prisional.
Sobre a APAC, pode encontrar no Meeting uma exposição permanente e pode ouvir o seu fundador, o juiz Carlos Alexandre, dia 24 às 19h30, à conversa com Maria João Sousa Leitão (neonatologista) e Aura Miguel (jornalista da RR e presidente do Meeting).

Haverá ainda conferências sobre música, sobre política, sobre a fé. É ver o programa e aparecer - a entrada é livre.

Saiba mais em meetinglisboa.org


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

"A reabilitação das raízes cristãs da Europa nunca será possível se não começar pelo amor ao próximo"

Só para dizer que faço minhas as palavras da Nota de Abertura da RR:
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O primeiro-ministro da Hungria veio defender a forma como o seu governo lida com os refugiados, argumentando com as “raízes cristãs” da Europa. E pergunta mesmo se não é “alarmante que a cultura europeia cristã esteja quase sem condições para defender os seus próprios valores cristãos”.
Infelizmente, os valores cristãos da Europa têm sido maltratados nos últimos anos pelos próprios europeus. São continuamente desbaratados por muitos que estão dentro e não pelos que vêm de fora.
A reabilitação das raízes cristãs da Europa nunca será possível se não começar pelo amor ao próximo. Fechar portas, erguer muros, cavar trincheiras, abdicar da solidariedade é o modo menos cristão possível de lidar com a dor e o sofrimento.
Nas difíceis condições de trabalho, na mentalidade economicista, no atropelo da liberdade, no aborto, na eutanásia e demais formas de desprezo, no modo de olhar a imigração e no acolhimento de refugiados, joga-se sempre a dignidade da vida humana.
E defender a dignidade da vida humana, em todas as circunstâncias, significa redescobrir o que melhor o cristianismo tem para oferecer à humanidade – no mundo, na europa e também na Hungria.
Este muro de argumentos do primeiro-ministro húngaro não é menos demagógico do que o muro de 175 quilómetros que mandou construir na fronteira com a Sérvia.
E muros, como este, são muros de triste memória. Evocar os valores cristãos para os erguer não é simples hipocrisia, é motivo de escândalo que enquanto cristãos temos a obrigação grave de denunciar e repudiar.
 


sexta-feira, 24 de abril de 2015

MARCA N'AGENDA: #somostodospessoas

 
 
Portugal está solidário com as vítimas e com todos os que se vêem forçados a partir das suas terras em busca de uma vida melhor. Este Domingo, vista uma peça de roupa branca, coloque um lenço branco à janela, faça um minuto de silêncio. E reze por todos os que esperam sobreviver nessa busca de uma vida mais digna: Homens, mulheres, crianças…
O Mediterrâneo não pode ser um mar de indiferença!As notícias dos últimos dias falam da morte de quem procura apenas uma vida melhor! Consternação e indignação é o sentimento que une várias organizações da Igreja Católica numa manifestação de solidariedade e de alerta para a atual situação de muitos migrantes que têm sido ultrajados na sua dignidade humana ao tentarem atravessar fronteiras à procura das mais básicas condições para a sua sobrevivência.
A Igreja Católica pede mais atenção para com as vítimas da imigração forçada. Porque acima das leis, para além das responsabilidades políticas, há vidas. Associe-se ao movimento “Somos todos pessoas”. Este Domingo… Contamos consigo!
Este ano, mais de 1500 pessoas morreram no Mar Mediterrâneo, um número 50 vezes superior ao de 2014. Os acontecimentos dos últimos dias, nomeadamente a morte de mais de 700 pessoas que se viram trancadas no porão do navio, e muitos outros já vividos não só no nesta região mas também noutros lugares onde a imigração é considerada irregular face às leis humanas vigentes, obrigam-nos a não ficar calados, sob pena de sermos cúmplices de um verdadeiro massacre que deveria envergonhar o mundo, particularmente os que têm responsabilidades políticas.
Agência Ecclesia, Cáritas Portuguesa, Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP), Comissão Nacional Justiça e Paz, Comissão Nacional Justiça, Paz e Ecologia dos Religiosos, Departamento Nacional da Pastoral Juvenil, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, Obra Católica Portuguesa de Migrações, Rádio Renascença , Serviço Jesuíta aos Refugiados e Sociedade de São Vicente de Paulo apelam a todos os portugueses para que, no próximo Domingo, dia 26 de abril, coloquem nas suas janelas um pano branco ou usem uma peça de roupa branca e se unam, em oração ou num minuto de silêncio, aos milhares de pessoas que se sentem solidárias com todos os que buscam uma vida melhor para si e para as suas famílias e partem diariamente das suas terras na procura legítima de melhores condições de vida.
Em todas as eucaristias celebradas no próximo domingo, será incluída uma prece no momento da Oração dos Fiéis, rogando a Deus que nos ajude a construir “uma só família humana”.
As organizações da Igreja Católica, com o apoio da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, lembram que todas estas pessoas “são pessoas como nós que se vêm obrigadas a fugir do seu país porque vivem situações que ferem gravemente a sua dignidade e colocam em risco a sua sobrevivência e das suas famílias”.
Acreditamos que a União Europeia pode e deve fazer mais por cada uma destas pessoas, nomeadamente, olhando de forma diferente para os seus países de origem. As organizações da Igreja Católica pedem medidas que ultrapassem a excessiva preocupação securitária e de controlo de fronteiras e que se pensem alternativas de maior humanização.
Um gesto tão simples como este que agora se propõe é uma manifestação de indignação e, para além disso, deverá ser entendido como uma adesão pessoal e institucional à realidade vivida nas periferias e o inconformismo com uma cultura do descartável.
“São homens e mulheres como nós, irmãos que procuram uma vida melhor, famintos, perseguidos, feridos, explorados, vítimas de guerras. Procuram uma vida melhor, procuravam a felicidade.” Papa Francisco

#somostodospessoas

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Serão estes os novos mártires da pureza?

Muita gente que escreve neste blog, muita gente que lê este blog, conhecia o Diogo Andrade e Sousa.
Quando nos morre alguém assim é impossível ficar indiferente, e o sentimento de revolta transforma-se numa arma, não numa arma qualquer - mais como o Oleandro, a flor com que São José leva no seu bastão.
Emocionei-me, novamente, com a história deles, agora num artigo da Graça Franco para a Rádio Renascença: Agradecimento pelos olhos do Diogo e da Tugce.
Sobre os olhos daqueles que veem. Sobre a coragem daqueles corajosos.
E estas vidas, e estas mortes, desperta-nos, a nós cegos.
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Recupero o seu nome numa busca da net: Diogo Andrade e Sousa. Faço-o porque, em Agosto, segui durante vários dias , através de alguns amigos da família, a angústia da sua morte.
Bastou 'googlar' "jovem de sucesso esfaqueado no Cais do Sodré" para reencontrar a história do arquitecto estrangeirado de 28 anos que, durante umas curtas férias em Lisboa, encontrou estupidamente a morte. Em mãos deixou os projectos nas Caraíbas em que estava a colaborar e uma vida recheada de amigos e promessas.
A perda do jovem talento foi notícia pela violência da morte: esfaqueado na zona do Cais Sodré, porque ousara defender uma amiga do assédio de um gangue.
A sua morte foi lamentada, sobretudo, pela perda inútil do seu reconhecido talento, mas a verdade é que Diogo não estava sozinho naquela movimentada rua na noite de diversão, mas fora ele a cometer a "loucura" de tentar intervir. E é por esse gesto de coragem que é exemplo de luta contra a indiferença e o medo que nos vai tolhendo.
Esquecera injustamente o seu nome e recupero-o hoje para o associar à homenagem que mais de 170 mil alemães (unidos numa inédita petição) pretendem prestar a uma jovem compatriota de origem turca reclamando que o Estado, a título póstumo, lhe entregue uma medalha de mérito reconhecendo-a uma espécie de heroína nacional. Coisa que até a senhora Merkel, já fez saber, também verá com muito bons olhos.
Quem era? Tugce Albayrak não viveu o suficiente para se transformar numa jovem de sucesso. A 15 de Novembro foi brutalmente espancada, no parque de estacionamento de um McDonald's, na pequena localidade de Offenbach, nos arredores de Frankfurt. Foi a consequência de ter, alguns minutos antes, contribuído para salvar duas jovens do assédio de que estavam a ser vítimas na casa de banho do restaurante.
Tugce não foi a única a testemunhar o crime que estava a ser cometido no interior, mas só ela teve a coragem de não fingir que não via o que estava a acontecer. Essa ousadia custou-lhe a vida. Brutalmente espancada, entrou em coma naquela mesma noite( tal como acontecera a Diogo depois de esfaqueado), e acabou por morrer mais de uma semana depois, no dia em que festejaria 23 anos.
Esta quarta-feira a mesquita de Wachtersbach foi pequena para acolher os mais de 1.500 presentes para as cerimónias fúnebres que um canal de TV alemão transmitiu em directo. O caixão coberto pelas bandeiras da Turquia e Alemanha seguiu depois para o discreto cemitério de Bad Soden-Salmunster, localidade de onde a jovem de origem turca era natural. Às cerimónias, que comoveram o país, assistiram o embaixador da Turquia e o governador do Estado de Hesse em reconhecimento pelo acto de coragem demonstrado.
Um dia antes do espancamento de Tugce já o jornal "El Mundo" dava conta dos resultados de um estudo sociológico levado a cabo pela organização sueca STHLM Panda . O estudo visava testar como reagiriam testemunhas acidentais a um caso de violência doméstica. A equipa de sociólogos colocou uma dupla de actores no interior de um elevador simulando uma discussão que começava numa troca de impropérios e acabava em violência física sobre uma jovem mulher. A cena repetiu-se por várias viagens, filmada por câmaras ocultas, e testemunhada pelos vários passageiros acidentais que não suspeitavam da simulação.
Os resultados da experiência foram desanimadores e mostram uma espécie de anomia social que talvez possa designar-se como a "síndroma de não querer ver".
Entre 53 pessoas que acabaram por testemunhar a cena apenas uma mulher ousou por fim à violência com uma ameaça: "Se voltas a bater-lhe chamo a polícia." Os restantes fingiram não ver.
À saída, confrontadas pelos sociólogos para explicarem a sua actuação, todas as testemunhas, todas sem excepção, se mostraram envergonhadas por não terem feito nada e aliviadas por ter sido apenas uma experiência. Dá que pensar. Juraram não repetir.
É por isso que Tugce e Diogo merecem que lhes agradeçamos terem tido "olhos" que não fingiram não ver e com isso nos ajudarem a manter abertos os nossos! Obrigada
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