quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O Luto do Fraldário

Às duas e quarenta e cinco chega a sua casa o homem da Galp e, ao abrir-lhe a porta, leu-lhe nos olhos a mensagem que não podia ter vindo mais a calhar num dia complicado como aquele. Ela leu nos seus olhos que ele pensava como quem dizia:

- Esta deve ser maluca.

Era ela desgrenhada, enrolada em malhas, botas de pêlo até ao joelho, barrigão de grávida até ao pescoço, de cara em lágrimas porque no dia anterior tinha descoberto que o fraldário de madeira branca no IKEA estava esgotado em Loures, Alfragide, Matosinhos e na Conchichina. Quando é que vem? Em Março, filha. Valha-me Deus! De maneira que, por lhe ter ocorrido há vinte minutos o luto do fraldário, agora não sabia explicar-lhe o problema do gás. Nem queria saber do problema do gás, foi o seu marido que lhe encomendou o arranjinho. Amanhã de manhã vem cá o senhor blablabla…, pode recebê-lo? É claro.

- Bom dia, pode explicar-me o que se passa?

Não sabia explicar-lhe nada. E também não se preocupava muito com isso naquele momento. Ela podia bem sobreviver a banhos de água fria. Mas qual problema do gás? Mandou-o entrar, indicou-lhe a caldeira ou esquentador ou lá o que era aquele aparelhómetro inestético na cozinha. E, após um longo silêncio, lá fez um esforço para se lembrar de algumas frases que, articuladas, fizessem sentido.

- … a água, no geral, nunca aquece muito. É isso. Já veio cá um senhor da caldeira e disse que o problema era da Galp. Mediu uma coisa e disse que o gás devia estar a entrar a 20 e está a entrar a 6.

Sim, era mais ou menos isso. O sujeito vestido de colete e munido de ferramentas várias nos múltiplos bolsos que o adornavam dos ombros até aos tornozelos, franziu o sobrolho e disse:

- Muito bem, vamos lá ver.

E ela pensou:

- Muito bem, vou-me sentar numa cadeira.

E sentou-se.

Gostava de construir as coisas a pensar na eternidade. Tudo, na sua vida, no seu extremo, tendia para aí. Todas as decisões, ideias, escolhas, para fazerem sentido em cada momento, e em caso de dúvida, tinham que ser pensadas a longo prazo, numa perspectiva de vida eterna, de que não acabamos nunca, de que somos feitos de uma massa onde habita uma substância perpétua. Para além disso, o âmago de cada situação não reside apenas no triângulo necessidade – ideia – consequência. Do âmago faz parte a forma, o estilo, a delicadeza, o amor dos actos. Sim, isso é tão belo, tão humano, tão comovente. Como a delicadeza e preciosidade de um animalzinho de origami ou a simplicidade bruta de uma folha de papel reciclado. Ali também, na simples escolha de um fraldário…

- Posso ligar a água menina?

… na simples escolha de um fraldário se punha essa questão, como em tudo. Não é bom para a arrumação. É verdade que era mais barato, dos suecos, mas é de má qualidade, sabia que não ia durar muito, quando o desmontarem já não ia servir para o próximo - se Deus quiser. Sim, no fundo era isso… era a vaidade. Era porque queria muito pôr umas cestinhas de verga giras giras da Zara Home na parte de baixo com as fraldas e os Dodots e os cremes cheirosos Uriage, mas ali só iam ganhar pó. E pó são ácaros nojentos que ela já tinha visto no microscópio. Têm garras e são bichos nojentos mínimos camuflados. Era isso. Ia comprar uma cómoda branca, um móvel sólido, com gavetas práticas e deslizantes que ia forrar e encher de alfazema e onde tudo ia ficar limpinho. E que mais tarde podia utilizar para arrumar outras coisas que não fraldas e dodots. Talvez brinquedos, talvez livros. Ia deixar-se de vaidades, de entes mesmo efémeros como um fraldário.

- E pronto. Por aqui não há problema menina. O gás está sempre a entrar a 20. Mesmo quando eu abro os bicos todos do fogão e ponho a caldeira a trabalhar no máximo ao mesmo tempo. Olhe, venha cá ver.

E confere. O cheiro do gás natural foi como um bálsamo refrescante. Suspirou de alívio. A sua cara já era outra. Olhou a Senhora que tinha pintada em tons de azul num azulejo da cozinha e disse-lhe apenas duas coisas. Duas coisas que Lhe dizia várias vezes por dia e que mesmo que não dissesse, mesmo que só pensasse, Ela lia nos seus olhos o que ela pensava como quem dizia: desculpa e obrigada.

Desculpa por ser maluca de natureza e hormonal de estado fisiológico. Obrigada porque nunca é suficiente o que lhe devia agradecer. Ainda acham, a maioria das pessoas do mundo moderno, que é bizarro e extravagante tomar uns bons banhos de água fria de vez em quando.

Essa gente vai levar o maior banho de água fria quando chegar lá a cima. E sorriu com o trocadilho.

- Olhe, da nossa parte, tudo bem. Receio não puder ajudar mais, a senhora já viu as medições. Isto deve ter a ver mesmo com a caldeira ou até com os filtros das torneiras que devem estar com calcário ou a pressão que chega lá dentro às casas de banho não é suficiente. Mas o problema não é do gás, da nossa parte, podem ficar descansados. Ora com licença.  

- Perfeito! – respondeu – muito obrigada na mesma pela sua ajuda. Não se preocupe, agora está tudo bem e eu vou dizer isso ao meu marido.

Às três e dez foi-se embora, mas não sem antes olhá-la daquela maneira tão primária, simples e masculina que ora lhe dava gozo, ora lhe dava fúrias mas que ela topava a léguas:


- Esta deve ser maluca.




5 comentários:

M. dita disse...

Kika que saudades dos teus textos.

TF disse...

O máximo!! :)

Leonor disse...

Kika!! Que maravilha...! Já não me lembrava de como escreves TÃO bem. Obrigada por isto :)



PS: se calhar o problema do gás resolve-se se mudares para a EDP, tem boas propostas eletricidade+gás :p
ah, e as novas bombas de calor além de darem banhos quentinhos poupam água e eletricidade: experimenta este simulador! https://energia.edp.pt/particulares/servicos/eficiencia-energetica/bombas-de-calor.aspx

- Fim do momento publicitário -

Grande beijinho e mais uma vez obrigada!

Catarina Nicolau Campos disse...

Kika querida percebo-te tão bem!!!!!!!!!!!!!!!!
Os cestos da zara home serão úteis um dia para os brinquedos, fraldas e dodots vao muito bem dentro dos Ikeas!
E este nosso ja vai para o 3o, os suecos podem surpreender-nos.
Mas à parte disso..baby F. nasce para o mês que vem e não tem onde dormir. Deus providevit! Desanimar só de vez em quando ;)

Maria R. disse...

A kika está de voltaaa!!!!!! Finalmente, já tinhamos saudades da nossa "maluca de natureza e hormonal de estado fisiológico" !! ahah És só de chorar a rir!

Quanto ao fraldário, aqui a tua cunhada arranja-te um mais bonito, barato e de melhor quaidade que os dos suecos!