quarta-feira, 12 de novembro de 2014

dizem por aí que é bom ter saudades.

 
Não há nenhum dia que eu suba aquelas as escadas e não oiça a tua voz a vir da sala, “oh messa”.
Faz hoje 2 anos que foste embora, mas ficaste. O cheiro ainda está pelos corredores. As coisas continuam como tu gostavas que estivessem, o cadeirão no canto da sala, o crucifixo na tua mesa-de-cabeceira, ainda há roupa tua nas gavetas. Ao fim de semana ainda se costuma fazer aquela comida. Na rua as pessoas ainda me falam de ti, como tivessem a dar-me recados para te dizer.

Mas eu estou feliz.
Porque tenho saudades.
Porque tive quem me ensinasse a apreciar o cinema, e quando não sabia ler eras tu que lias as legendas.
Porque tive quem me ensinasse a ouvir musica, Nino Rota num disco de vinil não é para todos.
Porque tive quem me ensinsasse a ser criança quando eu era criança.
Porque no meu tempo não havia babyssitings, mas havia avós.
Porque escondias chocolates num lugar secreto, e não sabias guardar o segredo.
Porque fazias misturas improváveis na cozinha, e ainda não era moda a comida groumet.
Porque tive a oportunidade de ter uma sala decorada pelo sec XVII, na geração IKEA.
Porque em casa havia livros, e muitos escritos por ti.
Porque aos 5 anos eu já sabia quem era Rubens, Caravaggio e o Fellini, e que o Father Gabriel converteu os índios da Amazónia com uma flauta.
Porque sabia que estavas lá.
Porque eras tu que estavas lá.
 
Estou feliz porque sei que aproveitei um avô.
Mas sobretudo estou feliz porque a vida continua, para aqueles que souberam o que era essencial  na vida. 
 
"tive um sonho e tive a felicidade de o ter realizado (...) Este sonho realizou-se com a ajuda da minha mulher e filhos, foi um trabalho em equipa em que ninguém foi mais do que alguém".
Avô, In, discurso numa Conferência Europeia acerca da solidariedade entre gerações, 1992