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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

"Play the Marseillaise! Play it!"

Perante estes acontecimentos tenho me lembrado da história de quando estreou o filme Casablanca, no cinema açoriano. Era uma história, ou melhor era História, que o avô Francisco contava-me, sem se fartar de contar e eu sem me fartar de o ouvir.
Ele tinha uma grande admiração pelos franceses, "símbolo de liberdade", dizia-me,  com o seu espirito revolucionário e o seu caracter de historiador, contava-me como o cinema fora um aliado nesta luta  "eu vivi tempos de guerra, em que a história foi escrita não pelos vencedores, mas pelos corajosos, pelos mártires, pelos homens coerentes, incorruptos, que lutavam pela dignidade, pela vida, pela justiça e pela liberdade. No dia em que, nos Açores, chegou às salas de cinema o filme "Casablanca" isso não nos era indiferente, nós sabíamos o que era a guerra, nós sabíamos o valor da nossa liberdade, por isso, no filme, quando Victor Laszlo mandou tocar La Marseillaise, frente aos Nazis e,  juntamento com aqueles dissidentes, todos nós, naquela sala de cinema nos levantamos, todos nós nos pusemos de pé e cantamos, ou melhor gritamos, com as lágrimas nos olhos, o hino da França, porque sabíamos que ali estava o sangue dos que morreram pela nossa liberdade... Naquele cinema podíamos ser um pequeno grupo de açorianos, homens e mulheres que aparentemente  viviam isolados nas ilhas, mas tínhamos fé na humanidade."
Perante estes acontecimentos não me é indiferente ouvir La Marseillaise, afinal de contas, eu também tenho fé na humanidade.
 
 
 (Santa Missa celebrada pelas vitimas dos ataques terroristas - Notre Dama Paris)

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Saudade

 
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Já fez 3 anos, passou rápido, ou talvez não, mas ainda tenho na memória a sua voz e o seu cheiro, os seus conselhos, ainda o vejo na sua poltrona, ainda o vejo às voltas das suas antiguidades, ainda o vejo a comprar chocolates e, às escondidas, a dar aos netos "chiu... não digam nada aos pais", afinal de contas também é para isso que servem os avós, para fazer tolices.
Porque hoje faz 3 anos que o meu querido avô Francisco partiu.

Deixou-me muitas coisas, grandes coisas, coisas que não consigo explicar, coisas imaterializáveis, coisas que não são palpáveis, coisas eternas...
Deixou-me uma grande herança, desde a rebeldia como vivia o seu gosto pela arte sem presunções nem elitismos, a dedicação aos livros, a reverência ao cinema, à musica e as suas visões políticas, completamente anarquistas.
Deixou-me valores, mas daqueles valores que já são uma raridade. De caracter forte mas sempre carinhoso à sua maneira.
Deixou-me uma família e, que raro ter uma família, que extraordinário que riqueza, talvez a maior herança que nos podem deixar: uma família.

Em tua memoria; hoje vesti as riscas, que me ofereceste quando foste a Lisboa;
Em tua honra; hoje trabalho a ouvir Nino Rota.
Em tua vitória; hoje vou à Missa.
Em tua alegria; hoje deixo aqui a tua cena de cinema preferida, aquela cena que retratava a subtileza humana, a história da fragilidade e da grandeza do perdão. A conversão dos índios da Amazónias ao som do Ennio Morricone na flauta do Father Gabriel, o Jesuíta da Missão. Era o confronto entre dois mundos, entre duas culturas mas um só Deus e tu dizias-me sempre "é impossível não chorar ao ver isto":
 
 
 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

dizem por aí que é bom ter saudades.

 
Não há nenhum dia que eu suba aquelas as escadas e não oiça a tua voz a vir da sala, “oh messa”.
Faz hoje 2 anos que foste embora, mas ficaste. O cheiro ainda está pelos corredores. As coisas continuam como tu gostavas que estivessem, o cadeirão no canto da sala, o crucifixo na tua mesa-de-cabeceira, ainda há roupa tua nas gavetas. Ao fim de semana ainda se costuma fazer aquela comida. Na rua as pessoas ainda me falam de ti, como tivessem a dar-me recados para te dizer.

Mas eu estou feliz.
Porque tenho saudades.
Porque tive quem me ensinasse a apreciar o cinema, e quando não sabia ler eras tu que lias as legendas.
Porque tive quem me ensinasse a ouvir musica, Nino Rota num disco de vinil não é para todos.
Porque tive quem me ensinsasse a ser criança quando eu era criança.
Porque no meu tempo não havia babyssitings, mas havia avós.
Porque escondias chocolates num lugar secreto, e não sabias guardar o segredo.
Porque fazias misturas improváveis na cozinha, e ainda não era moda a comida groumet.
Porque tive a oportunidade de ter uma sala decorada pelo sec XVII, na geração IKEA.
Porque em casa havia livros, e muitos escritos por ti.
Porque aos 5 anos eu já sabia quem era Rubens, Caravaggio e o Fellini, e que o Father Gabriel converteu os índios da Amazónia com uma flauta.
Porque sabia que estavas lá.
Porque eras tu que estavas lá.
 
Estou feliz porque sei que aproveitei um avô.
Mas sobretudo estou feliz porque a vida continua, para aqueles que souberam o que era essencial  na vida. 
 
"tive um sonho e tive a felicidade de o ter realizado (...) Este sonho realizou-se com a ajuda da minha mulher e filhos, foi um trabalho em equipa em que ninguém foi mais do que alguém".
Avô, In, discurso numa Conferência Europeia acerca da solidariedade entre gerações, 1992

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

aDeus Avô

Quem me conhece sabe que o meu avô era-me muito próximo, no meu tempo não havia babysittings havia avós, e foi com os meus avós dos Açores que eu passeia grande parte da minha infância e juventude, com eles aprendi muita coisa da minha vida, mas sobretudo aprendi a viver, a história, a arte e a ver cinema (ainda não estava na primária e já tinha visto os clássicos todos, enquanto o meu avô Francisco lia as legendas...), foi o meu avô que me deu o meu primeiro caderno, foi com eles que aprendi a nadar e a apreciar as coisas belas do mundo, uma delas o chocolate!
Em 1992, há 20 anos atrás numa conferência Europeia acerca da solidariedade entre gerações o meu avô disse: "tive um sonho e tive a felicidade de o ter realizado (...) Este sonho realizou-se com a ajuda da minha mulher e filhos, foi um trabalho em equipa em que ninguém foi mais do que alguém"


Muito Obrigada Avô, tenho Saudades tuas! Até já....
Avô Francisco
XXIV | Outubro | 1930
XII | Novembro | 2012

"Quando eu estiver todo em Ti, não mais haverá tristeza nem angustia; inteiramente repleta de Ti, a minha vida será plena
Santo Agostinho