sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

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A 9 dias do Natal, dois amigos foram ao cinema.

A 9 dias do Natal, sairam contentes. Afinal, embora triste, era um filme interessante porque apelava à consciencialização da degradante experiência que, diariamente, milhões de mulheres vivem por todo o país.





Conheciam as estatísticas – a cada 21 minutos uma mulher é violada na Índia. A cada 16h uma mulher é violada na capital. Conheciam a zona, viviam nas redondezas. 
O que a idade e a ingenuidade própria dos dois ainda não lhes permitia conhecer era a capacidade do Homem, ser racional, de perder o auto-controlo e ter tendências piores que as animais, na busca cega de algo que não lhe pertence. A capacidade do Homem para ser livre, na mais pura essência do termo, e confundir essa sensação com poder. Sobre os mais fracos.

Sairam do cinema e seguiram até à estação de autocarros mais próxima. Esperaram algum tempo, o suficiente para trocar ideias sobre o filme. Os dois concordavam – era um filme pesado, bem feito, muito real. Demasiado real.

A protagonista principal do filme, Damini - Luz em hindi - era uma lutadora. Sabia o que queria. Sabia que ninguém a demoveria. Queria ser médica, independentemente da família não ter qualquer forma de pagar as elevadas propinas da Faculdade de Medicina de Delhi.

A protagonista vivia no campo, com toda a família e com as dificuldades próprias de quem luta pela sobrevivência, enquanto pouco sobra e tudo falta. Era possível, convencia-se ela e, de facto, passados largos anos, chegou o momento da decisão. Damini conseguira aquilo que acreditava ter nascido para fazer – tratar dos mais fracos, dos doentes, aliviar as dores de quem não se podia defender da doença. O sacríficio era enorme. Implicava vender o terreno em Uttarakhand e mudar-se toda a família para a confusão de Delhi, onde cada dia era uma dádiva e a sobrevivência se fazia da criatividade.

Mas Damini, a protagonista, estava decidida e assim foi. Como em tantos outros casos, chegada à Universidade, foi uma aluna brilhante. Os pais não sabiam quando é que a filha arranjava tempo para dormir, porque todo o tempo era dedicado ao estudo. Queria honrar a decisão da família e um dia, quando tivesse o primeiro emprego, devolver o investimento que haviam feito na sua formação.

Depois de muitos anos de estudo, a protagonista forma-se em fisioterapia. A poucos dias de começar o estágio, às 21h, entra num autocarro que, pensa, a levará a tempo de jantar em casa com os pais. O condutor pede-lhe 10 rúpias pelo bilhete e enquanto ela conta o dinheiro que tem na carteira, este diz-lhe, baixinho: ‘sabes que apenas as meninas de má vida andam nas ruas a esta hora não sabes?’. Foi pouco o tempo que lhe deram para reagir. Damini é brutalmente violada por 6 homens, numa viagem que dura mais de uma hora. No final, abrem-se as portas do autocarro e o seu corpo é atirado para o meio das ruas. Sem roupa e quase sem vida. O condutor ainda tentou atropelá-la mas falhou o alvo. O álcool tem destas coisas..

Tinha 23 anos. Tinha a minha idade, pensava Damini. Curiosamente, tinha o mesmo nome que a protagonista do filme.. Eram 21h e o autocarro finalmente chegava à paragem. Subiu. Ele estava ali também, não deveria haver problema.

A 9 dias do Natal, nunca teriam imaginado que seriam o caso nº 637 de violação em Delhi, só em 2012. Damini e o amigo, engenheiro de 28 anos, entraram no autocarro que pensavam levá-los ao seu destino. Um outro destino.

Damini tum sangharsh karo, hum tumhare sath hain.

Ver a notícia aqui.

2 comentários:

Margarida disse...

Obrigada por nos trazer novamente esta notícia, e por a desenvolver e aprofundar com a sua perspectiva sensivel e inteligente, evitando assim que casos destes sejam esquecidos. Ajuda-nos a estar atentos às oportunidades para mudar estas situações. Parabéns pelo blog!

Ana Ulrich disse...

És linda! Como eu gosto de ti!