segunda-feira, 2 de julho de 2012

Roadtrip

Mapas de uma vida. Marcas de alegrias extasiantes e das tristezas mais profundas.
Sinal de vidas cheias.
 Mapas de um passado. Marcas de descendências e de ascendências.
Sinal de que há muito mais a caminho.
 Mapas da idade. Marcas do amor vivido e das experiências sentidas.
Sinal de que valeu a pena. 
As mulheres bonitas e cheias de rugas sempre me desconcertaram.
Quando conheci alguma ou me deparei com outra, ficava à espera que dessem o primeiro passo, que me contassem tudo. Tudo o que gerou aqueles traços que o tempo não apaga, aquelas marcas de água que de transparentes nada têm, porque escondem tanta História. 
Tão bonitas quanto enigmáticas.
Na maior parte das vezes acabei por não desvendar os seus segredos.
Porque a maior parte passou por mim na rua e seguiu o seu caminho.

A minha bisavó Manuela não tinha rugas. Ou se tinha, tinha menos do que eu, com os meus 22 anos. Viveu pouco tempo? Não. Morreu aos 98 anos. Viveu como viviam as senhoras na altura - duas empregadas para cada filho, as filhas não estudavam e estavam em casa a fazer companhia, a aprender francês e a tocar piano. Os homens caçavam, e chegavam cedo a casa. Não conheceu os momentos duros que a vida pode oferecer.

Já bem diferente foi a história da sua filha e minha avó Maria Teresa, uma mulher cheia de vida e por isso cheia de rugas. Era uma mulher linda, daquelas belezas que se desvendam com o tempo. Conheci a sua cara de cor, e ainda agora, passados dois anos da sua partida, relembro cada pormenor da sua fisionomia. Era uma mulher feliz. Também viveu até tarde, embora menos uma década que a sua mãe. Mas ao contrário desta, viveu a Vida.
Daquela forma que vale a pena e nos faz querer pedir o livro de receitas e as doses exatas, e por fim, replicar.


E por termos sido parte dessa vida, todos sabíamos a que momentos correspondiam as suas rugas:
Ao meu avô David, o amor da sua vida, que mais tarde ficou doente com bipolaridade.
A oito filhos e por isso oito alegrias das extasiantes.
A uma última filha, Maria, que nasceu com trissomia 21, algo pouco aceite na sociedade de então. E que esteve ao seu lado até ao último segundo, a melhor enfermeira que a minha avó poderia ter pedido.
À partida da penúltima filha, Leonor, que não resistiu a um cancro. 
À contagem de tostões, como as mulheres da atualidade bem sabem fazer.
Às mil preocupações e duas mil alegrias com os 8 filhos, 15 netos e 13 bisnetos.

Soube viver como alguém que sabia que não se ficaria por aqui. Mais a esperava. Porque havia ainda tanto espaço de pele jovem para encher esse mapa que foi a sua vida.

Fez a sua Roadtrip, até à última ruga.

7 comentários:

Catarina Nicolau Campos disse...

Lindo, Ana.. Gosto muito de vocês : )

Anónimo disse...

Muito bem escrito! A Ana escreve muito bem, sem dúvida. Mas reparem que ultimamente têm sido sempre as mesmas a escrever. Eu gosto de vos ler mas este blog não é de várias!?? Isto é uma sugestão de quem gosta de vos ler. :)

Ana Ulrich disse...

Sem dúvida! Vamos lá meninas!

Ana Ulrich disse...

E eu de ti minha Catarina.

Anónimo disse...

Obrigada por ter aceite tão bem o meu comentário. Parabéns pelo vosso trabalho. =)

Unknown disse...

Anita muitos parabéns por este post! Esta lindíssimo. Um grande beijinho Di

Maria disse...

Que bonita a ideia de mapas e de sinais de vidas cheias, caminhos percorridos e a percorrer. Tão inspirador (e inspirado!). Obrigada.