segunda-feira, 2 de julho de 2012

Manas de azul e branco

Lembrei-me disto quando li isto (obrigada Maria!).

3 saris - dois para alternar dia-sim, dia-não e um para dias de festa - feitos à mão por doentes de lepra. Um balde para os lavar diariamente. Uma barra de sabão azul. Quilos de alegria. Vozes de anjo.

Com esta reduzida lista de ingredientes, Sobre-vivem as manas, como lhes chamamos amorosamente. Sem protagonismos, sem falsas modéstias, sem barreiras, são assim as Missionárias da Caridade.

Tive a oportunidade de estar com elas na Índia em dois anos diferentes, 2009 e 2010. De cada vez, mudou alguma coisa na minha vida. Mudou a necessidade do silêncio para ouvir Alguém maior. Mudou o número de peças de roupa no armário. Mudou o amor aos outros, quando esses outros estão em condições tais que nem sabem constituir alguém.

Mudou tudo por dentro. Vinha mais apegada que nunca às relações, e mais desapegada que nunca às pessoas. Porque as ouvia a dizer, sem dramas, que uma missionária da caridade envia uma carta por mês para casa e que só se volta a encontrar com a família ao fim de 10 anos, 120 cartas depois. Vinha centrada no que realmente faz correr sem cansar.

Por fora também mudou muita coisa. Quando voltei, em pleno Verão, não conseguia andar com roupa que mostrasse mais do que tornozelos, pescoço, cara e ante-braços. Vinha radiante. Vinha desprendida de telemóveis, de i-pods, de banhos de água quente, de maquilhagem, de chocolates, de coisas. Andava descalça por tudo o que era sítio - casa, rua, carro - o trânsito infernal mas extremamente organizado da A5 causava-me dores de cabeça e a ausência de estrelas no céu lembrava-me as saudades que tinha do campo indiano, das luzes nas palhotas, do silêncio dos anjos.

E relativizou tudo o que até então era mais-que-certo. E mostrou que não há maior alegria do que dar tudo o que temos, porque de facto muito mais recebemos. E ajudou-me a dar muitos sim's, um maior que todos os outros, em grande parte por ter aprendido com a sua entrega de amor e a sua contemplação, nas ruas confusas e barulhentas de Calcutá.

Saudades de chegar à casa-mãe e ver, à porta, o fecho a indicar "Mother Teresa M.C. - IN". Porque o seu corpo aí se encontra agora enterrado, e porque o sorriso daquelas noviças e manas mais-velhas é o legado que Agnes Gonxha nos deixou.


Ainda me lembro muito delas. Ainda tenho saudades de estar ao lado das manas a ouvi-las cantar. E de as ver a cuidar dos doentes com todo o amor que há neste Mundo e no outro. E daqueles abraços quando sabiam que mais precisávamos deles.
Porque são acima de tudo Mães da Caridade - M.C.

Tive a oportunidade de continuar o trabalho em Portugal, em Chelas, onde outras manas vivem. É necessária muita ajuda. Se o quiserem fazer digam-nos, porque temos os contactos necessários.

2 comentários:

Ana Ulrich disse...

O "isto" que me despertou para isto, está neste link:

http://fashionstatement-mulherescomestilo.blogspot.co.uk/#!/2012/06/o-fim-da-historia-dos-jimmy-chho.html

O do post vai logo para o blog (um grande blog por sinal)!

Maria disse...

Querida Ana: sinal mais este post. Muito inspirador, muito profundo e muito eficaz = efeitos para a vida. Promete cada vez mais este blogue. Muita inspiração!