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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Morte assistida (?)

José Ribeiro e Castro, comentando as notícias, escreveu no seu FB um testemunho sobre a "morte assistida", ele que acompanhou por perto a incrível história do seu irmão Fernando, doente oncológico, fundador da Associação das Famílias numerosas e mentor do dia Nacional do Irmão, a história de um homem generoso que, pelo visto, teve uma "morte assistida":

Isto da "morte assistida" é uma hipocrisia e uma mentira pegada. Uma fraude deliberada de linguagem.
Morte assistida é o que se passa todos os dias nos hospitais, com os doentes que são cuidados clinicamente até ao último momento. Morte assistida é o que se passa naquelas famílias que assistem e acompanham, com carinho, os seus familiares nos últimos dias e momentos de vida. O meu irmão morreu, há pouco, assistido, no hospital. A minha avó paterna morreu, assistida, em casa, quando eu era criança. É a primeira morte de que me lembro. O meu avô materno morreu, assistido, no hospital. O meu avô paterno morreu, assistido e acarinhado, em casa de meus pais. A minha mãe, a minha avó materna e o meu pai morreram todos subitamente, pelo que não foram assistidos. O médico e a família apenas puderam constatar os óbitos.
Não se pode despenalizar a morte assistida, porque a morte assistida não está penalizada. A assistência na morte é um dever de todos os próximos dos moribundos: médicos, familiares, outros profissionais de saúde, cuidadores em geral. Não só é legal, como é devida.
Este debate não é sobre morte assistida. Este debate é sobre eutanásia, isto é, sobre morte provocada.
Também eu, se não morrer de morte súbita, ou violenta, ou de acidente, terei certamente uma morte assistida: ou em estabelecimento de saúde ou social, ou em minha casa com a família. Não temos que nos preocupar com isso. Já é assim.
José Ribeiro e Castro




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Mário


"Somos livres porque Mário Soares esteve do nosso lado contra os comunistas. Não tivesse tido o discernimento e a coragem de o fazer, e a vida da geração dos meus avós, dos meus pais, e a minha, teria sido desgraçada. Por isso estou-lhe profundamente grato.
Mas Mário Soares foi muito mais que esse momento. Era o ‘bochechas’ que perdeu para Sá Carneiro e para quem ia perdendo o centro político. Não fosse Camarate como teria sido a carreira política do então líder do PS?
Soares foi o primeiro-ministro da austeridade que, 30 anos depois, criticou em nome de interesses que, quando necessário, combateu. Ganhou a presidência com coragem e 8% nas sondagens. Mas teve azar com as duas maiorias absolutas de Cavaco.
Implacável, não aceitou que o país não precisasse dele. Entrincheirado numa esquerda à qual não pertencia, defendeu um mundo diferente daquele que ajudou a fazer. O último Soares combatia ainda, mas contra a inevitabilidade do fim, luta para a qual qualquer coisa servia."

Jornal Económico, André Abrantes Amaral

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Marca n'Agenda | Porque há vida depois da morte



D. Javier Echevarria: Surf, só à terça-feira!

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a carta de um filho espiritual ao seu Padre
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Para Deus não há acasos e, por isso, foi providencial que o prelado do Opus Dei, D. Xavier Echevarria, falecesse ontem, dia de Nossa Senhora de Guadalupe, aos 84 anos, em Roma.

São Josemaria Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei, era muito devoto da Santíssima Trindade, as três pessoas que há no único Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – mas também de uma outra muito santa trindade, formada pela Sagrada Família de Nazaré: Jesus, o próprio Filho de Deus encarnado, sua mãe Maria e o seu marido, José.

São Josemaria, de certo modo, também veio a constituir, com os seus dois imediatos sucessores, uma certa ‘trindade’ mas, como é óbvio, sem qualquer pretensão a qualquer analogia com as referidas trindades! Com efeito, mais não era do que um trio, ou uma tróica, composta por S. Josemaria, por D. Álvaro del Portillo, que viria a ser o primeiro prelado do Opus Dei, e por D. Xavier Echevarria, nessa altura mero sacerdote e secretário do fundador: ambos, com efeito, costumavam acompanhá-lo sempre. Depois da morte de Escrivá e da eleição do seu sucessor, em 1975, Echevarria passou a ser secretário-geral do Opus Dei e, em 1982, vigário-geral da prelatura, até à sua própria eleição e nomeação como prelado, após o súbito falecimento, em 1994, de D. Álvaro del Portillo, entretanto beatificado pelo Papa Francisco. Foi ainda o Papa São João Paulo II quem, em 1995, elevou D. Xavier ao episcopado, como tinha feito já com o seu antecessor, por ser canonicamente congruente com o seu múnus prelatício.

Para Deus não há acasos e, por isso, foi providencial que D. Xavier Echevarria, de 84 anos, viesse a falecer no dia em que liturgicamente se celebra a festa de Nossa Senhora de Guadalupe. São Josemaria, em 1970, durante uma viagem pastoral ao México, ao contemplar um quadro da aparição de Maria ao índio Juan Diego, comentou: “Assim quereria eu morrer: olhando para Nossa Senhora e que ela me desse uma flor”. Depois de um breve momento de silenciosa oração, concluiu: “Sim, gostaria de morrer diante deste quadro, com Nossa Senhora a dar-me uma rosa”. E assim morreu, de facto, no dia 26 de Junho de 1975, em Roma, pelo meio-dia, hora particularmente mariana: ao entrar no seu quarto de trabalho, olhou para a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe e caiu, fulminado, ao chão, para expirar pouco depois.

Chamados a Roma os eleitores, em representação de todos os fiéis do Opus Dei, votaram unanimemente naquele que tinha sido o mais directo colaborador do santo fundador. Álvaro del Portillo tinha também participado intensamente nos trabalhos do Concílio Vaticano II, nomeadamente como secretário da comissão que redigiu o decreto relativo à missão e vida sacerdotal. Como sucessor de Escrivá, coube-lhe a difícil missão de levar a bom termo o processo de reconhecimento canónico do Opus Dei como prelatura pessoal, solução jurídica já prevista e desejada por Escrivá mas que só com Portillo foi possível implementar. Sob o seu impulso e com a bênção de S. João Paulo II, fundou a Universidade Pontifícia da Santa Cruz, na cidade eterna, e promoveu o trabalho pastoral e social do Opus Dei em muitos países.

Poucas horas depois da sua chegada a Roma, de regresso de uma breve viagem à Terra Santa, D. Álvaro del Portillo faleceu no dia 23 de Março de 1994. São João Paulo II, de quem era muito amigo, fez questão de ir pessoalmente, nesse mesmo dia, à cúria prelatícia, para rezar diante dos seus restos mortais. Por segunda vez na história desta obra de Deus, foi despoletado o processo eleitoral previsto no direito próprio da prelatura, de que resultou a eleição do então vigário-geral, Mons. Xavier Echevarria. São João Paulo II confirmou a eleição nomeando-o, no próprio dia 20 de Abril de 1994, prelado do Opus Dei e ordenando-o, pouco depois, bispo.

D. Xavier Echevarria, não obstante o apelido basco, era madrileno, mas viveu praticamente toda a sua vida em Roma, com S. Josemaria Escrivá e o Beato Álvaro del Portillo. Era proverbial a sua boa disposição, a sua humildade e a sua simplicidade: raramente, mesmo já sendo prelado e bispo, trajava de outra forma que não fosse uma simples batina preta, como qualquer padre, sem outro distintivo do que a cruz peitoral e um muito discreto e simples anel episcopal. Era tratado por padre por todos os fiéis da prelatura, dispensando outras fórmulas mais cerimoniosas mas menos familiares. Numa ocasião em que padeceu uma grave insuficiência cardíaca, disse a D. Álvaro que era chegada a hora de o substituir, como vigário-geral, por alguém mais válido, numa atitude de grande desprendimento e humildade.

Numa das suas últimas vindas a Portugal, tive ocasião de jantar com ele e, depois, participar numa muito amena reunião familiar. Sabendo do seu bom humor, enquanto lhe oferecia uma pagela com uma oração que compus para os surfistas, perguntei-lhe se praticava esse desporto, tão popular entre os jovens. Já octogenário, riu-se do meu atrevimento, ao mesmo tempo que me respondeu: Surf, só à terça-feira!

Já neste ano recebi uma sua carta pessoal, muito carinhosa, a propósito de uma minha doença e consequente internamento hospitalar. Sempre que morria algum dos mais velhos fiéis da prelatura, fazia também questão de escrever uma carta para as pessoas da Obra nesse país, consolando-as no seu luto. Todos os meses, também neste último do ano que foi também o último da sua vida, mandava uma carta-circular, não só para as pessoas do Opus Dei mas também para os cooperadores e amigos, em que nunca faltava alguma citação do magistério recente do Santo Padre, nem o pedido de orações pelo Papa Francisco, por toda a Igreja, pela Obra e, em especial, pelos mais necessitados.

Os primeiros cristãos chamavam dia de natal à data da morte, porque é o momento do nascimento para a vida eterna. Muito embora, humanamente, esta hora seja de tristeza e saudade, espiritualmente é de grande felicidade, na filial esperança de que aquela tão humana, feliz e santa ‘trindade’ – S. Josemaria, o Beato Álvaro e D. Xavier – já se tenha reencontrado junto da trindade da terra – Jesus, Maria e José – e da Santíssima Trindade. Laus Deo!

Padre Gonçalo Portocarerro, Observador 




sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Marianne

Este post é sobre Leonard Cohen, por isso chama-se Marianne
Porque nós somos quem somos graças a quem amamos.



Para aqueles que não acreditam no amor até a fim, para aqueles que andam a marcar a agenda ocidental, para aqueles que dizem que é só um papel, para aqueles que não se comprometem, para aqueles que não amam... eis Leonard Cohen, um génio da alma humana, um visionário dos sentimentos, um jogo de escuridão e de luz:

"Chegámos a um tempo em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que serei o próximo, dentro em pouco. Quero que saibas que estou tão próximo de ti que, se estenderes a mão, talvez possas tocar a minha. Sabes que sempre amei a tua beleza e sabedoria, mas não preciso de discorrer sobre isso porque já sabes de tudo perfeitamente. Quero apenas desejar-te boa viagem. Adeus, velha amiga. Todo o amor, encontramo-nos no caminho"
 (Marianne Ihlen tinha 81 anos, morreu no hospital de Diakonhjemmet, em Oslo, poucas semanas depois de lhe diagnosticarem uma leucemia)




Porque só ele sabia conjugar o verbo dançar: "Dance me to the wedding now, dace me on and on"  uma homenagem aos que acreditam.
















Por fim, a obra prima do mestre: "Love is not a victory march" isto nunca foi  tão actual.



Existem homens que não morrem. Simplesmente ficam, mesmo partindo. 
Obrigada mestre.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O avô da Carolina

Naquele dia a Carolina tinha mandado uma mensagem aos amigos, a avisar que o seu querido avô tinha partido para junto de Deus, pediu as nossas orações.
Eu não conhecia o avô da Carolina, mas conheço a Carolina, por isso tinha a certeza que só podia ser alguém muito bom - penso que existe um provérbio que diz que conhecemos a arvore pelo fruto e, eu, fiz uma dessas deduções.
O facto é que no outro dia deparo-me, nas notícias, com a história do avó da Carolina e, a minha dedução, não só foi certa, como conheci uma vida ainda mais rica.
Por vezes precisamos de ler estas histórias de pessoas "normais" para percebermos que está no nosso alcance marcar a diferença no nosso país. Deixar rasto e de viver uma vida cheia, depende de nós e da nossa entrega aquilo que fazemos. Foi tudo isso que senti quando conheci o avó da Carolina (podíamos ter tido muitas boas conversas, afinal ele apreciava um dos meus escritores de predileção)
 
 
 
 
Jorge Colaço, Observador | 29/8/2016
 
 


 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Margarida Sousa Uva

Eu tenho uma filosofia, que pode parecer um cliché e dos baratos, contudo eu penso que tenho uma certa razão um grande político tem sempre uma grande mulher, posso estar a exagerar ou até mesmo a circunscrever uma enorme realidade, mas o facto é que eu vejo muito de Eleonor em Roosevelt, e o que seria de Reagan sem Nancy como é impossível ler a história de Balduíno da Bélgica sem perceber que ele foi quem foi graças à Rainha Fabíola...
 
Quando percebi que Margarida Sousa Uva, mulher de Durão Barroso morreu, veio à cabeça esse raciocínio: uma grande mulher, apesar de estar à sombra de um marido político. Margarida morreu a lutar, como era típico da sua personalidade.
Aqui gostava de escrever sobre o seu caracter, a sua pessoa, as suas lutas, mas acredito que o melhor mesmo é citar palavras próprias, que refletem tudo isso, uma artigo escrito por Margarida sobre a  morte da Maria José Barroso.
 
Com as suas palavras podemos conhecer a grande alma, a sensibilidade e a feminilidade de Margarida Sousa Uva e perceber que perdemos uma grande mulher.
 
 
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Minha querida Senhora
(Margarida Sousa Uva, DN 2015 07 16 )

É não apenas difícil mas talvez absurdo até escrever--lhe agora que já não está entre nós. A verdade é que, tendo podido, não fui ao seu funeral. Não foi o cancro, que já é do domínio público, o cansaço ou os quilos a mais, o cabelo mais embranquecido e curto que me travaram. Mas sou muito avessa a enchentes desta natureza e, embora nada tenha seguido nem pela televisão (também não a ligo muitas vezes), estou certa de que havia uma multidão a acompanhá-la. Também não sou próxima da sua família, apesar de conhecer o seu marido, melhor, os seus filhos, menos bem. Não me pareceu ser lá o meu lugar. Não tive vontade de a chorar diante de outros. E a verdade é que só ontem, dias depois da sua partida, se abateu com toda a força sobre mim a verdade dura de que não mais a verei, nem ao seu sorriso, não mais ouvirei a sua voz nem as palavras amáveis que sempre me reservava ao ver-me "Gosto muito de si", enquanto a suas mãos, calorosas, apertavam as minhas com força. Acabou. Foi lendo um jornal do passado fim de semana que me dei realmente conta desse facto irreversível. Acabou. Não mais a verei, nem à sua frágil silhueta dos últimos anos. Julguei-a eterna, imortal, uma rocha firme, uma árvore estranhamente alta tendo em conta a sua pequena estatura física, árvore de raízes fundas, que, vagamente sentia, havia de nos sobreviver a todos.

Primeiro contou-me o meu marido que, numa ocasião recente em que estiveram lado a lado, tinha sido ele a segurá-la, a impedi-la de cair. A seguir ao "obrigada" (por ter impedido a queda), seguiu-se o "Sabe que gosto muito da sua mulher". Depois chegou a notícia do coma irreversível. Eu estava então em Bruxelas atarefada com mil coisas, médicos, fisioterapeutas, papelada que restava de uma mudança a que não conseguia vislumbrar o fim. Chegada de longe, a notícia parecia um boato. Não seria assim, ela resistiria, pensava um tanto distraidamente enquanto corria de um lado para o outro com a ajuda de um familiar. Veio-me à cabeça o "São loucas! São loucas!", grito de Amália. E agora mesmo, sentada neste fim de tarde numa bonita varanda diante de dois gigantes, uma araucária e um cipreste, que se dividem entre o mar e o céu que têm por fundo, vejo claramente quão grande é a sombra que projeta ainda a diminuta figura que os anos lhe conferiram e como nos fará falta a todos. Aqui, preciso de lhe fazer uma confissão. Vezes houve em que julguei existir uma pontinha de vaidade a motivar algumas aparições públicas suas que fui presenciando de há tempos para cá. Julguei-a mal. Não queria ficar sentada em casa, como uma inútil, a ver televisão. Tinha toda a razão. Velhos são os trapos. Nós, quando a lucidez não nos deserta, somos sempre os mesmos, no princípio e no fim. O corpo velho contém ainda todos os desejos, todos os entusiasmos da juventude. Só o sonho se esbate por sabermos que o tempo que nos resta é menor e, assim mesmo, há quem continue a sonhar até ao fim.

Dou-me mais uma vez conta de que tendo, durante muito tempo, invejado terrivelmente a posição do homem, ser masculino, na sociedade em que vivo, sinto hoje um particular orgulho pelo facto de ter nascido mulher. Foram mulheres que ao longo de milénios e de incontáveis gerações cuidaram dos outros, cuidaram dos seus, cuidaram da família, dos amigos e dos doentes e dos mais velhos, sem disso fazerem alarido, como a minha amiga soube fazê-lo. E se me consola ver que lentamente (quão lentamente e a que preço!) nos aproximamos de uma igualdade de direitos efetiva relativamente ao homem (o respeito, esse pequenino pormenor, por aquilo que é uma mulher, esse ainda tem léguas para andar...), se me apraz ver um cada vez maior número de mulheres a desempenhar funções com impacto no nosso viver comum e no dia-a-dia de todos, sofro com e preocupa-me o abandono em que vivem tantas crianças e tantos adolescentes. E pergunto--me: como podem as sociedades ser tão estúpidas a ponto de não perceberem que crianças e adolescentes entregues a si mesmos, ou a quem não os ama, não poderão senão crescer ervas daninhas ou plantas tortas e doentes, que a comparação com um jardim se aplica? O que impede a compreensão por parte de quem decide (governos, empresas) que crianças e adolescentes não são "eles" mas sim "nós"? Que os mais velhos, a quem devemos respeito e uma vida digna por tudo o que entretanto fizeram, não são apenas os "eles" de hoje, serão (não é claro?) os "nós" de amanhã? Não, não estou, afinal, a dizer que as mulheres têm de ficar em casa a tratar dos filhos que os casais decidem ter e mais tarde também dos pais que vão envelhecendo. A função de cuidador pode ser desempenhada tanto pela mulher como pelo homem, é uma questão de cultura, uma questão de hábito, uma questão de legislar em conformidade com esse princípio. Mas quero agradecer a todas as mulheres que amaram o suficiente para se conformar, quando isso se tornou necessário, com aquela que é ainda vista como uma função menor e tão subvalorizada. A si, muito em particular, o meu obrigado por, tão só e tão sofridamente, ter cumprido esse dever que todos temos de ajudar o ser humano no começo da sua vida a crescer "direito", a crescer saudável, a descobrir os seus talentos, a compreender o sentido e a importância do amor. E recordo o que um dia, num avião rumo a África em que todos viajávamos, um amigo que vos é próximo me confidenciou: "Se soubesse o que esta senhora sofreu, o marido exilado em Paris, ela sozinha em Lisboa com os filhos, o colégio, as compras na praça às cinco da manhã para gastar menos..." Via-se que sabia do que falava e não mais esqueci esse curto relato.

Vejo-a ainda, e também com nitidez, no tempo em que me foi dado conviver consigo em funções oficiais, particularmente fora de Portugal. Lembro-me de me ter impressionado a sua energia e a frescura com que, de manhã à noite, sabia reservar um sorriso amável a quem vinha ao seu encontro. Nessas ocasiões, e em conversas que fomos tendo, mais de uma vez a vi indignar-se e perguntar: "Mas porque hão de dizer que atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher? Porquê atrás? Porque não ao lado?" Mas... o povo lá sabe o que diz. Eu era nova na altura. Hoje ter-lhe-ia respondido assim: ao lado é só para a fotografia. Na realidade é mesmo atrás, atrás das cortinas, fora do palco, que o amor atua e o mais importante se passa. O amor que, como dizia São Paulo na sua carta ao Coríntios (13), "tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". Por mais de uma vez a vi chorar, na igreja do Campo Grande, enquanto se dirigia à comunhão. Custou-me vê-la assim. E se é mais fácil compreender o sentido do amor, já é um desafio bem maior procurar compreender o sentido do sofrimento e aceitá-lo.

Nesta ilha portuguesa onde descanso uns dias, oiço o mar e as gaivotas, vejo as nuvens deslizarem no céu empurradas pelo vento e penso em si como estando aqui presente enquanto escrevo, entre o jardim, as aves e o céu. Também gosto muito de si. É tarde para lho dizer. Não sei se o seu coração me consegue ainda ouvir. Gosto de pensar que sim.

sábado, 30 de abril de 2016

Enquanto estou vivo não estou morto

A 10 de Abril de 2015, há pouco mais de um ano, o historiador Paulo Varela Gomes dava um testemunho incrível sobre a sua vida, a sua doença e as suas fragilidades. Sem floreados, com os medos próprios de um homem falível, demonstra que mesmo assim é possível ter esperança e viver plenamente. Até hoje. Morreu o autor destas palavras:

"Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. "

Hoje está morto, mas estas palavras podem ajudar muitos outros a viver.
Leiam o seu testemunho humaníssimo aqui.

terça-feira, 12 de abril de 2016

A experiência da Eutanásia

A TSF passou um testemunho intenso e bastante arrepiante de uma enfermeira portuguesa em Bruxelas. Vale a pena ler este depoimento tão real e tão próximo de nós. Vale a pena perceber o que é a verdade da eutanásia.
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Uma enfermeira portuguesa relata a experiência "traumatizante" que viveu num caso de eutanásia a uma mulher saudável na Bélgica, onde a prática é autorizada.

A eutanásia "é simplesmente uma forma de desistência [da vida]". É a opinião da enfermeira portuguesa Verónica Rocha, com quem a TSF conversou em Bruxelas. Ela viu-se envolvida num caso de eutanásia de uma mulher saudável. Descreve esta prática, autorizada na Bélgica, como uma experiência que a traumatizou. Considera que, uma vez autorizada a lei, é difícil um profissional recusar-se a colaborar. Mas, é isso que promete fazer, caso apareça outra situação de eutanásia, na casa de repouso onde trabalha como enfermeira, em Bruxelas.
As palavras saem-lhe em catadupa, quando fala da eutanásia que foi obrigada a preparar."Comecei a ficar mal, desde o dia em que soube que iria existir [um caso de] eutanásia [na casa de repouso], porque sabia que o único problema daquela pessoa era a solidão", confessa a enfermeira portuguesa, a quem tinham dito que "não teria de fazer parte da equipa" nem teria de "assistir". Mas, não foi o que aconteceu.
 
Verónica Rocha soube, em cima da hora, que faria parte da equipa responsável pela eutanásia de uma das utentes da casa de repouso onde trabalha. Foi informada com a chegada do médico."Ele diz-me: estou no elevador à sua espera. E eu perguntei: como assim? "Vamos subir, foi a resposta"", disse a enfermeira, que ainda ainda questionou o médico se teria mesmo de subir, uma vez que não se sentia "preparada".
 
Minutos depois estava no quarto da mulher, "saudável" de 70 anos. Com "a filha em lágrimas", o médico deu a ordem para o início do processo.
"Não se importa de meter o soro a profundir?", pediu o médico e a enfermeira, "muito nervosa", procurou a veia e apontou a agulha. "Estava bastante nervosa. Acho que nunca me custou tanto picar uma pessoa como naquele dia (e era uma mera profusão)", disse à TSF, confessando ainda que, já com a eutanásia em curso, começou "a chorar".
 
"A senhora limpou-me as lágrimas e disse-me: "Verónica, não chores, porque eu estou feliz". Perguntei-lhe como pode estar feliz com uma decisão destas? Ela diz que "é o melhor e o que mais deseja".
 
A enfermeira conta que a mulher ainda lhe disse que ela "sempre a cuidou bem" e que "sempre gostou" da portuguesa, que acabou por lhe confessar que "não concordava" com a eutanásia de um modo geral, mas especialmente com aquela, por se tratar de uma pessoa que "não tinha nenhuma doença".
 
"A chorar disse-lhe obrigado, mas não lhe poderia desejar boa sorte porque eu era contra aquilo que ela estava a fazer. Ela respondeu: "penso que a minha filha também"", contou a enfermeira, relatando um momento em que o processo de eutanásia está prestes a tornar-se irreversível.
 
"[A filha] dizia: "mãe, recusa. Por favor. Eu venho aqui todos os dias. Levo-te para minha casa. Entretanto, (...) ouço o médico a dizer à filha: "chegou a hora. Despeça-se da sua mãe. Deram um beijo. A filha disse: "amo-te". Amo-te, foi a resposta da mãe", conta a enfermeira, que "preferia não ter assistido a nada daquilo".
 
"O médico injetou duas ampolas de 05 ml de uma substância. Começou a profundir e só lhe pergunta "está bem?" e ela [responde] "muito bem". Não tirei os olhos da senhora. Vejo-a tranquila", contou Verónica Rocha, explicando ainda que quando restavam "três mililitros" da substância usada pelo médico a senhora começou "a ir" e, no final dos 10 mililitros "já não tinha vida". O processo final durou menos de "um minuto".
 
"Ele [o médico] fechou-lhe os olhos. Colocou-lhe a mão sobre o coração, não há batimentos. E, a pessoa começa a arrefecer instantaneamente", contou a enfermeira portuguesa, garantindo ainda que "recusará participar numa próxima eutanásia", embora saiba que está "num país em que a qualquer momento podem dizer: tens que subir de novo" para o piso onde o doente estiver instalado.
 
Verónica Rocha expressa uma opinião muito negativa, que "já tinha antes", contra a eutanásia. Mas, a sua convicção tornou-se "mais forte", depois da experiência que viveu.
 
"As pessoas só têm noção do que é eutanásia, depois de assistirem à eutanásia. [Diz-se que] é uma morte digna ou uma morte sem sofrimento e uma morte rápida. Mas, simplesmente, é um método fácil de desistência", considera a enfermeira que terminou o curso há dois anos, chegou a Bruxelas há ano e meio, para trabalhar numa enfermaria geriátrica, depois de não ter conseguido emprego em Portugal.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

“Este cancro salvou-me a vida”

Numa altura em que Sofia Ribeiro assumiu publicamente querer "seguir o exemplo dos milhares de Mulheres, guerreiras, que conseguiram ganhar ao cancro", a pergunta torna-se inevitável: Afinal, a batalha só é ganha se se sobreviver? Ou a vida pode ser salva de outra forma?
26-11-2015 - Um médico oncologista do hospital hebraico de Montreal recorda a amizade que nasceu com Carla, uma doente, nos meses antes de sua morte. As férias com a comunidade e “o enamoramento” que a fez sentir-se mais viva que nunca
Pode um homem nascer de novo sendo velho? Estarei para sempre agradecido pela possibilidade de lembrar a minha amizade com a Carla, que me põe em condições de responder a essa pergunta. Eu sou médico oncologista no hospital hebraico de Montreal e conheci a Carla há dois anos, quando lhe foi diagnosticado um cancro da mama em estado avançado.

(...) Ela tinha criado uma espécie de carapaça, dedicando muito do seu tempo ao trabalho numa instituição de Protecção da Infância num cargo de responsabilidade e enfrentando muitos casos difíceis. Nunca tinha casado e estava acostumada a dar ordens e a ter o comando. Mas é um grande problema quando se tem um diagnóstico de cancro em estado avançado, porque isso despedaça completamente a sensação de teres o controlo das coisas e te obriga a cuidar de ti próprio em e não dos outros, fazendo-te sentir de certo modo mais vulnerável.

(...) Era evidente que ela estava a lutar contra a sensação de não ter o controlo e ia aos poucos aceitando os seus novos limites físicos. Além dos sintomas do cancro e dos efeitos secundários das terapias, discutíamos muitas vezes sobre a liberdade e a dependência, sobre aceitar o facto de termos sido amados primeiro e sobre o reconhecimento da presença de Deus em cada circunstância. As perguntas dela eram as mesmas que eu tinha e eu não podia mentir. Conversando sobre o seu trabalho na Protecção da Infância, eu falei-lhe nos dois irmãozinhos que adoptei. Perante aquelas perguntas eu só podia falar da minha experiência e dos meus amigos: os mesmos amigos que ela conheceu pela primeira vez no nosso concerto de Natal, no qual participou com a sua irmã e familiares.

Lentamente o rosto dela começou a mudar, assim como a sua atitude. Livre. Com a liberdade que vem duma gratidão. O ponto de não retorno para ela foram as férias com os adultos e as famílias de CL, em que ela participou com a sua bengala e uma grande curiosidade. É difícil descrever o que lhe aconteceu lá a não ser com o termo “enamoramento”. Na volta das férias ela começou a ler e a informar-se sobre o Movimento e a perguntar à Paula sobre a nossa história e a nossa amizade. A par da beleza que ela tinha visto, aquilo que tinha conquistado a Carla era o facto de que a sua liberdade era continuamente provocada e jamais forçada. Quando a irmã dela lhe começou a fazer perguntas, mostrando uma certa curiosidade pelo Movimento, a Carla disse: “Eu nunca vi nada parecido. Nas férias eu chorava todos os dias no meu quarto, de tal maneira me sentia arrebatada por tudo aquilo... Não tenho certeza de que estejas realmente pronta para isso!”... Não era exatamente o “Vinde e vede” do Evangelho, mas felizmente isso não desencorajou a irmã de Carla, que em Setembro começou a frequentar a Escola de Comunidade com ela.

(...) Poucas semanas antes de morrer, Carla teve a possibilidade de participar num casamento, acompanhada por um amigo da comunidade. À mesa, radiosa com a sua peruca, que ela na realidade odiava, tinha começado a contar a todos os seus velhos amigos – entre os quais muitos judeus – o seu encontro com o Movimento. “Este cancro salvou-me a vida. Digo realmente. Não sou ingénua, sei muito bem que vou morrer em breve, mas nunca estive tão viva. Vocês também precisam de ver o que eu vi, nunca vi nada parecido”.
Podem ler este fortíssimo testemunho na íntegra aqui.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

saudade.

 
"Luz terna e suave / no meio da noite / leva - me mais longe / não tenho aqui morada permanente /
leva - me mais longe"
 
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

...entre a vida e a morte...

Henrique Raposo comenta o maravilhoso testemunho de Paulo Varela Gomes
(clique aqui: "Morrer é mais difícil do que parece")
 
 
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Cancro e suicídio
Paulo Varela Gomes publicou na “Granta” um texto muito cá de casa, porque fala de cancro e suicídio. É que o suicídio corre forte na minha família, cortesia da herança alentejana. No Alentejo, sobretudo no meu, entre Santiago e Odemira, o suicídio é tão natural como o vento a passar nos sobreiros, é encarado como um acontecimento da história natural e não da história humana, é visto como acto amoral da natureza e não como escolha moral do homem. É maremoto de Neptuno, e não opção do Zé. Aceita-se sem escândalo. Nos velórios oiço sempre esta frase: “temos de respeitar a escolha dele, não é verdade?”. Não, não é verdade. Há dias, numa aldeia perdida, quis entrar num restaurante mas estava fechado. Uma senhora que passava, baixa, de negro, mãos severas, avisou-me: “’tá fechado, ele matou-se. Tá vendo aquele ajuntamento além? É o funeral”. Ela proferiu estas palavras com uma naturalidade desapiedada, como se estivesse a comentar o tempo, a forma das nuvens ou o canito da vizinha. O tom da voz não se alterou, ficou plano como a planície. Era como se o senhor tivesse ido trocar uma nota na loja ao lado.
Em reacção a esta cultura, sempre fui um crítico do suicida. Até me lembro de um episódio tumultuoso na escola: num workshop de prevenção do suicídio, levantei-me no auditório para dizer que o suicida é um cobarde. Recebi uma saraivada de tomates. Saraivada merecida, diga-se. A questão não é assim tão primária. A cabeça do suicida é a morada postal de uma dor que não pode ser chutada para a baliza que vai da coragem à cobardia. E confesso que sinto uma admiração, digamos, literária pelo suicida. O seu mistério atrai-me. Contudo, aquela opinião juvenil e precipitada já continha aquilo que defendo hoje: o meu herói é aquele que fica, que resiste, que encara a derrota. Se posso respeitar um suicida em concreto, posso e devo rejeitar a cultura do suicídio que existe no Alentejo, uma cultura que vai da relativização natural até à explícita romantização, “ele foi muito homem, muito corajoso”. Até porque, como diz Paulo Varela Gomes, há no suicida um grama de prosápia, de ego que recusa o cheiro da figueira ao pôr do sol, de ego que não se deixa amparar pelos outros, de ego que se fecha num silêncio imune às palavras e gestos de quem o ama. E se há coisa que o alentejano domina é este silêncio altivo. Freud dizia que a psicanálise não funcionava com os irlandeses, porque eles não falam. Está visto que Freud nunca foi à planície.
Nesse texto abençoado, Paulo Varela Gomes conta como o cancro o conduziu até à beira do suicídio para depois o reconduzir à fé, numa espécie de montanha russa teológica. Percebo, admiro e comovo-me com o volte-face. A minha recente aproximação a Deus e as minhas tentativas de regresso à Igreja que me baptizou são também respostas à cultura de suicídio das minhas raízes, são contra-ataques, são investidas sobre aquele sussurro negro e melífluo. Varela Gomes diz que “há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos”. Eu, que estou a aprender a rezar, rezarei hoje por ele e pelos meus que já cometeram ou pensam cometer suicídio. Não estão sozinhos.
Henrique Raposo
Crónica Expresso, 21 junho

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Serão estes os novos mártires da pureza?

Muita gente que escreve neste blog, muita gente que lê este blog, conhecia o Diogo Andrade e Sousa.
Quando nos morre alguém assim é impossível ficar indiferente, e o sentimento de revolta transforma-se numa arma, não numa arma qualquer - mais como o Oleandro, a flor com que São José leva no seu bastão.
Emocionei-me, novamente, com a história deles, agora num artigo da Graça Franco para a Rádio Renascença: Agradecimento pelos olhos do Diogo e da Tugce.
Sobre os olhos daqueles que veem. Sobre a coragem daqueles corajosos.
E estas vidas, e estas mortes, desperta-nos, a nós cegos.
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Recupero o seu nome numa busca da net: Diogo Andrade e Sousa. Faço-o porque, em Agosto, segui durante vários dias , através de alguns amigos da família, a angústia da sua morte.
Bastou 'googlar' "jovem de sucesso esfaqueado no Cais do Sodré" para reencontrar a história do arquitecto estrangeirado de 28 anos que, durante umas curtas férias em Lisboa, encontrou estupidamente a morte. Em mãos deixou os projectos nas Caraíbas em que estava a colaborar e uma vida recheada de amigos e promessas.
A perda do jovem talento foi notícia pela violência da morte: esfaqueado na zona do Cais Sodré, porque ousara defender uma amiga do assédio de um gangue.
A sua morte foi lamentada, sobretudo, pela perda inútil do seu reconhecido talento, mas a verdade é que Diogo não estava sozinho naquela movimentada rua na noite de diversão, mas fora ele a cometer a "loucura" de tentar intervir. E é por esse gesto de coragem que é exemplo de luta contra a indiferença e o medo que nos vai tolhendo.
Esquecera injustamente o seu nome e recupero-o hoje para o associar à homenagem que mais de 170 mil alemães (unidos numa inédita petição) pretendem prestar a uma jovem compatriota de origem turca reclamando que o Estado, a título póstumo, lhe entregue uma medalha de mérito reconhecendo-a uma espécie de heroína nacional. Coisa que até a senhora Merkel, já fez saber, também verá com muito bons olhos.
Quem era? Tugce Albayrak não viveu o suficiente para se transformar numa jovem de sucesso. A 15 de Novembro foi brutalmente espancada, no parque de estacionamento de um McDonald's, na pequena localidade de Offenbach, nos arredores de Frankfurt. Foi a consequência de ter, alguns minutos antes, contribuído para salvar duas jovens do assédio de que estavam a ser vítimas na casa de banho do restaurante.
Tugce não foi a única a testemunhar o crime que estava a ser cometido no interior, mas só ela teve a coragem de não fingir que não via o que estava a acontecer. Essa ousadia custou-lhe a vida. Brutalmente espancada, entrou em coma naquela mesma noite( tal como acontecera a Diogo depois de esfaqueado), e acabou por morrer mais de uma semana depois, no dia em que festejaria 23 anos.
Esta quarta-feira a mesquita de Wachtersbach foi pequena para acolher os mais de 1.500 presentes para as cerimónias fúnebres que um canal de TV alemão transmitiu em directo. O caixão coberto pelas bandeiras da Turquia e Alemanha seguiu depois para o discreto cemitério de Bad Soden-Salmunster, localidade de onde a jovem de origem turca era natural. Às cerimónias, que comoveram o país, assistiram o embaixador da Turquia e o governador do Estado de Hesse em reconhecimento pelo acto de coragem demonstrado.
Um dia antes do espancamento de Tugce já o jornal "El Mundo" dava conta dos resultados de um estudo sociológico levado a cabo pela organização sueca STHLM Panda . O estudo visava testar como reagiriam testemunhas acidentais a um caso de violência doméstica. A equipa de sociólogos colocou uma dupla de actores no interior de um elevador simulando uma discussão que começava numa troca de impropérios e acabava em violência física sobre uma jovem mulher. A cena repetiu-se por várias viagens, filmada por câmaras ocultas, e testemunhada pelos vários passageiros acidentais que não suspeitavam da simulação.
Os resultados da experiência foram desanimadores e mostram uma espécie de anomia social que talvez possa designar-se como a "síndroma de não querer ver".
Entre 53 pessoas que acabaram por testemunhar a cena apenas uma mulher ousou por fim à violência com uma ameaça: "Se voltas a bater-lhe chamo a polícia." Os restantes fingiram não ver.
À saída, confrontadas pelos sociólogos para explicarem a sua actuação, todas as testemunhas, todas sem excepção, se mostraram envergonhadas por não terem feito nada e aliviadas por ter sido apenas uma experiência. Dá que pensar. Juraram não repetir.
É por isso que Tugce e Diogo merecem que lhes agradeçamos terem tido "olhos" que não fingiram não ver e com isso nos ajudarem a manter abertos os nossos! Obrigada
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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Morrer a lutar pela vida não é digno?

Se há assunto que é sério é a morte.
Morrer é difícil, a ideia de partir, deixar para trás tanta coisa, do desconhecido, da solidão, porque ninguém morre acompanhado, ninguém morre por ti, ninguém morre contigo.
Tu morres sempre sozinho.
Só a palavra morte arrepia, traz medo, pânico, pavor.
Ninguém quer morrer.
Nós não fomos criados para a morte, fomos criados para a vida. E nenhum niilista pode negar essa evidência, é a natureza humana. se não houvesse água eu não sentiria sede, se não houvesse vida eu não sentiria a vontade de viver eternamente.
Mas não quero falar do sofrimento das doenças terminais, nem quero falar da estupida impotência que é para as suas famílias, nem quero falar da dor física, insuportável, esgotante e sem fim, nem do vazio de quem espera pela morte.
Porque todas as palavras que posso escrever não são vividas apesar de ter acompanho, não sou eu ali.
Não quero falar da morte, quero falar da forma de morrer.
E quero dizer que há muita dignidade de quem sabe sofrer, ou melhor nunca vi maior manifestação de dignidade humana de quem aceita esse sofrimento, mesmo que isso signifique ficar sem cabelo, estar numa cama, perder a visão, deixar de andar, não saber quem é nem o que foi e o que faz, de não se reconhecer. Não é isso que te faz menos homem, nem é isso que faz a importância que tens para mim para o outro. E quem sabe agora é o momento para te amar mais, para estar contigo, para te agradecer.
Vivemos num mundo egoísta em que custa tratar dos doentes e dos mais velhos, eles normalmente cheiram mal, não sabem comer e já não são bonitos, mas é preciso de lembrar que o que nos distingue dos animais é o Amor. Fomos criados por amor, para amar e para sermos amados.
É digno a lutar pela vida até ao fim, é digno o amor de quem está à tua volta e que de repente se manifestou como nunca se tinha visto antes nem no dia do teu casamento, é digno quem se desprende de todo o material mesmo desse lindo cabelo e é digno quem sem entender e até sem querer abraça com tranquilidade o sofrimento.
A tua morte foi verdadeiramente digna, mesmo que o mundo diga o contrário.