sexta-feira, 30 de março de 2012

E uma salva de palmas para os homens

Após a enxurrada de críticas - positivas e negativas - às palavras do Cardeal (e já saberão do que estou a falar), e tendo tido sempre a pretensão de as comentar, pensei no entanto fazê-lo apenas já num período pós-guerra

Mas, qual não foi o meu espanto (de facto não foi assim tão grande, pois que este senhor escreve coisas muito acertadas), ao ler a opinião tão-tão-tão inteligente de alguém que tinha todas as razões para querer ficar calado, decidi que melhor do que qualquer meu discurso sobre o tema seria a publicação e, assim, eternização, neste blog, de tão sábias palavras.

Algumas pessoas já terão lido, outras ainda não. Para todas e todos, digo-vos: vale a pena. Ler, bater muitas palmas, agradecer, esta defesa das mulheres e da sociedade que vai muito para além da (tão pobre) defesa actual da mulher enquanto ser-emancipado-que-não-precisa-de-ninguém-para-viver-e-é-dona-do-mundo-para-sempre. 

(...) Hoje as mulheres são mais independentes, têm maior presença no mercado de trabalho, formam-se em maior número e são melhores alunas, ascendem com mais frequência a lugares de administração, etc. Mas (...) não há rosa que não tenha espinhos.

A progressiva emancipação da mulher na sociedade ocidental (...) tem os seus custos. As mulheres casam hoje muito mais tarde do que há 20 ou 30 anos e têm menos filhos, a família perdeu estabilidade, os divórcios aumentaram em flecha, há muitas crianças a sofrer com a separação dos pais, há menos recém-nascidos amamentados nos primeiros meses, os bebés passam os dias longe de casa metidos em depósitos - as creches - onde apanham imensas doenças, etc.

Em duas gerações, a família mudou radicalmente. Quando eu era criança, a maior parte dos meus amigos tinha a mãe em casa. As mães eram (...) donas de casa, e asseguravam a gestão familiar. Quando os meus amigos chegavam da escola, a presença das mães em casa para os receber dava-lhes conforto e segurança. A minha família era diferente - e, por isso, às vezes, eu invejava-os.

As casas das famílias da classe média estão hoje vazias durante todo o dia. Os miúdos acabam a escola e não podem ir para casa porque não há lá ninguém. Têm que ir para actividades extra-curriculares, onde os pais - exaustos e sem paciência - os vão buscar ao fim do dia, esperando que os filhos não exijam muito deles. É evidente que esta família não interessa a ninguém.

O pai não tem pachorra para tratar da casa nem dos filhos - na família tradicional também não tinha -, pelo que a mãe acaba quase sempre por ter de acumular o trabalho no emprego com o trabalho em casa, sentindo-se uma escrava do lar e apetecendo-lhe, por vezes, bater com a porta. (...) Quando a mulher não aceita esse encargo, o mais habitual é a separação do casal.

Quando as mulheres começam a olhar a vida em casa como uma escravatura, é natural que procurem alternativas fora da família. E elas agora existem: conhecem muita gente, privam no emprego com muitos homens, têm muitas oportunidades, têm mais independência financeira, têm termos de comparação em relação aos maridos - e, portanto, quando uma mulher começa a ver o marido como um chato, como um peso que não ajuda na lida da casa e a quem, ainda por cima, tem de lavar a roupa e fazer a comida, é fácil projectar os seus sonhos num companheiro de emprego. E daí a tomá-lo como amante é um pequeno passo. A casa e o marido são o lado aborrecido da vida, o amante é uma fonte de prazer.

Partindo do princípio de que fora da família é fácil encontrar o prazer efémero mas muito difícil construir a felicidade, é então necessário (...) um novo equilíbrio da família. Esta situação que agora se vive não é nada. (...) É indispensável uma reequação da família que permita aos dois membros do casal (homem e mulher) realizarem-se - mas que possibilite, também, que as mulheres tenham mais filhos (e os tenham mais cedo), que as crianças beneficiem de um maior apoio em casa, que os membros da família não andem cada um para seu lado.

Retrógrado, machista - alegaram alguns (sobretudo mulheres, sempre prontas a mostrar as garras quando sentem que estão a ser atacadas nos seus direitos). Visionário e inteligente (e burras essas mulheres que não percebem que defendem um individualismo triste e doentio) - respondo eu. 

Em duas páginas este senhor falou do estado actual da nossa sociedade. Não disse - como também o Cardeal não disse - que as mulheres não devem trabalhar, que o lugar delas é na cozinha, ou que são escravas dos respectivos carrascos - os maridos. Não disse que as mulheres não devem socializar, que devem andar de burca para não verem os homens que as rodeiam, ou que não devem sonhar. 

Não falou do passado, mas do futuro. Disse que a mulher tem um papel crucial na família e na sociedade. Disse que a mulher tem um papel fundamental na educação dos filhos. Disse que a mulher sempre foi mestra no que diz respeito a generosidade e amor conjugal. E, para isso, bastou-lhe tirar conclusões daquilo que vê quando acorda.

Talvez me digam que não é preciso dois dedos de testa para se tirarem estas conclusões. De facto não é. No entanto, é preciso mais do que dois dedos de coragem para, estando nós a falar de José António Saraiva (director do Jornal Sol), publicar em tão famoso jornal essas mesmas conclusões.

P.S.: Sei que, pelo tamanho deste post, acabo de cometer um atentado à sua possível leitura. Mas é porque vale a pena e porque sempre arranjamos cinco minutos para aquilo que nos faz bem. 

5 comentários:

Ana Ulrich disse...

Querida Teresa adorei! Ainda não tinha lido o texto integral pelo tamanho mas de facto vale a pena. Não queres enviar para o jornal Sol? Aqui em Madrid os trabalhadores saem pelas 3/5 durante a semana e à sexta pelas 2h30. Parece que, a crise de valores por estes lados, em que se permite um maior acompanhamento da família, segue uma trajectória contrária à crise nos mercados financeiros espanhóis. Emigremos! (nem penses!)

Catarina Nicolau Campos disse...

Lol!! Nós já pensámos em fazer isso...e aqui ao lado não é assim tão problemático.. ; )

Agora a sério, adorei!! Concordo a 100% com o texto, impecável. É mesmo esta rotina triste que convive com milhares de famílias: bebés pouco amamentados, nas creches desde pequeninos, maridos e mulheres cansados um do outro, actividades extra-curriculares em acumulação... e o pior é que é super fácil cair nestes erros, por muito que os nossos valores e vontades caminhem em sentido contrário.

CM disse...

Um texto claro, sobre o que faz falta, resolver o núcleo familiar. Quem tem mais de um filho sabe a quantidade de vezes que percebe que passar 12 horas fora de casa por dia e manter corpo e mente sã é um milagre :)
Mas infelizmente este tipo de opiniões é catalogada como machista, contra as mulheres. E é tão claro não é nem contra, nem a favor das mulheres é a favor da Família.
Obrigada pela partilha :)

alexandrachumbo disse...

Já tinha lido mas aqui ganhou ainda mais cor :) Obrigada*

Maria disse...

Razão. Razão. Razão. E quando se passam muitas horas no trabalho, acaba por se fazer no trabalho aquilo que é para fazer em casa. E isto vai sendo comum. Não preciso de ser mais explicita, pois não? E é por isso - desculpem o desafabo - que quanto mais homens conheço mais gosto do meu. Agora a "escravatura". É verdade quando não se têm as ideias no sítio. Porque quando se têm, essa "escratura" passa a ser o nosso trabalho mais importante, porque faz parte da essência do que somos, da nossa missão no mundo: marido, primeiro, os filhos depois. Trabalho insubstituível e pago a peso de ouro que não é salário, mas investimento. Em cada um, por cada um, garantia de que vão ser felizes e vão fazer um mundo melhor. Beijos da Maria