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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Porque a dor faz sempre sentido

Dia das Amigas nos Açores? Então este texto vem mesmo a propósito.


Porque a dor faz sempre sentido
Fui parar ao hospital com uma crise de asma aguda ou grave, não sei o termo certo. A sensação de não conseguir respirar, de exaustão, de não conseguir continuar tinha acompanhado todo o meu dia e foi horrível. Passei um dia e uma noite assim.
Quando entrei no hospital mal conseguia falar. Frequentemente, chorava porque me lembrava da minha mãe que viveu toda a vida, desde que me lembro, neste sofrimento, em permanência. Agarrada a bombas, a medicamentos, a reações alérgicas.
Tantas vezes, “ralhei” com ela porque estava super ansiosa, ou mal-humorada. Agora, vejo que, com aquele mal-estar, seria muito difícil estar de outro modo. Como ser simpática e afável quando se está sempre a lutar por respirar?
Num dos dias do meu internamento, algo aconteceu. Chorei muito e depois decidi escrever. Na altura, escrevi isto.
Hoje, a “minha mãe” morreu outra vez. Desta vez, mesmo à minha frente. Fui internada no serviço de pneumologia e fui colocada numa cama mesmo em frente a uma senhora muito parecida com a minha mãe. Uma senhora que, enquanto eu vi, esteve sempre a sofrer muito. Uma grande falta de ar, uma enorme máscara que mal lhe deixava ver o rosto e gemidos de socorro constantes.
Há dez minutos, morreu à minha frente. Estavam a dar-lhe sopa por uma seringa e ela, desta vez, não recuperou os níveis de oxigénio. A cabeça tombou. Tubos. Máquinas. Enfermeiros. Morreu.
E eu fui colocada aqui, em frente a esta senhora. Com nome de Nossa Senhora. Eu vi o seu sofrimento e assisti à sua morte mesmo à minha frente.
Deus envia-nos umas lições tremendas. O sofrimento é uma escola. Com tantas camas, eu estive 24 horas em frente à minha “mãe” a vê-la sofrer, a vê-la morrer. Estou a tentar perceber o que Deus me quer dizer com tudo isto. Talvez Deus queira que eu saia de mim.
A minha mãe foi a mãe que eu precisava. Sem grandes mimos, nem palavrinhas quentes, mas foi a mãe que eu precisei, que me fez, que me fez crescer. Eu é que talvez não tenha sabido ser a filha que ela precisava. Mesmo assim soube amar-me muito.
Hoje, a “minha mãe” morreu pela segunda vez. Morreu aqui à minha frente. Ainda me pediu ajuda algumas vezes, mas de nada lhe pude valer a não ser carregar na campainha para vir alguém em seu socorro.
Recordo que naquele dia, de manhã, as enfermeiras a tinham limpo com todo detalhe. Eu pensara que não devia estar a olhar porque a senhora tinha direito à sua privacidade naquele momento, mas não consegui desviar o olhar e vi todo aquele pormenor, a limpeza do rosto, um pouco de creme para hidratar, a água morna no pescoço e no peito. Tudo. Não sei bem porquê, mas algo me dizia que devia ver tudo aquilo com atenção e no máximo silêncio. Poucas horas depois, tudo aconteceu.
Paz à sua alma. Paz na minha alma.
Porque a dor faz alguma coisa fazer sentido.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Não perguntes porquê, mas para quê...

Ontem fui ao hospital, não era nada de especial, mas precisei de ir ao hospital e fui ao hospital. 
O bom de precisar de ir ao hospital é que apercebemos daquilo que é óbvio, que os amigos são das coisas mais importantes desta vida, que esperam connosco pacientemente, mais de 4 horas, numa sala que se chama "espera", e ali fazem companhia, conseguindo a proeza de nos distrair, e de nos tirar daquele sitio... (podia escrever muito sobre a amizade com este exemplo!)
Mas essas 4 horas numa sala de espera improvisada nas obras do Santa Maria deu-me para muita coisa, essencialmente para perceber que o estado da saúde em Portugal é um reflexo de uma degradação moral. É desumana a forma como os doentes são tratados, não falo por mim, que não gosto de me queixar, mas falo por aquela senhora acamada, mais velha que a minha avó, com um olhar poderoso, nitidamente estava nos últimos dias da sua passagem por este desterro, ali numa cama, numa sala de espera rodeada de barulhos e de muita gente, mas  ali estava sozinha, e quando dirigiam-se a ela (enfermeiros e auxiliares), falavam de um modo tão brusco como a própria senhora tivesse a culpa de estar doente. Falo também por aquele rapaz, um pouco mais velho do que eu, que lia enquanto esperava, era toxicodependente, mas não parecia, de repente descobre que tem uma infecção nos pulmões, meteram-no numa maca, para ficar internado, e enquanto se discutia quem o levava para o piso de cima o rapaz começou a chorar, sem ninguém dar por isso as lágrimas caiam silenciosamente, como silenciosamente lhe tinha passado a vida. Outro caso de um senhor que já estava senil e acamado, que não largava a mão da mulher, aquela pobre senhora, que outro dia tinha casado com o jovem senhor, mas via-se igualmente apaixonada, pois estava persistentemente ali desde as 3h da tarde (eram já 23h) sem ninguém dar a atenção suficiente....
As camas acumulavam-se nos corredores, tudo porque as ambulâncias não trabalham numa forma humana, mas trabalham numa forma rentável!
Eu percebo que esta área tem um trato difícil, um trabalho com uma entrega especial, mas não podemos esquecer que são seres humanos e não números, e não senhas e não pulseiras, são pessoas, almas, pais, mães.... cada médico, cada enfermeiro  cada auxiliar mais do que formação académica deve ter uma forte formação humana (QUE FALTA FAZ!), não pode cair na rotina, não pode habituar-se ao sofrimento, tem de tratar cada doente como fosse o primeiro, ou melhor como fosse ele próprio.
A maior lição que tirei desta sala de espera, é que a existência do sofrimento não é em vão...
Depois de uma injecção, soro (+ remédio) fui embora, sem dores mas com uma grande dor!