quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um cansaço feliz




"Cansaço feliz" foi uma expressão que ouvi nestes últimos dias e que se adequa, de uma ou outra forma, ao ano letivo ou de trabalho já percorrido ou a percorrer e aos planos para as férias que já fizemos ou vamos fazer.
Fez-me pensar que, apesar da conotação negativa da palavra cansaço, o cansaço feliz deve ser das melhores sensações que podemos experimentar. 
Só estamos cansadas e felizes quando fizemos algo que nos saiu "da pele", que exigiu bastante de nós, que nos levou a pôr capacidades nossas a render e, talvez, até nos tenha obrigado a pôr em prática capacidades que nem sabíamos que possuíamos. Levou-nos a dar e, principalmente, a darmo-nos. Aos outros, porque o dar e o dar-se exigem, naturalmente, recetores, que não nós próprios. Foi necessário que saísse muito de nós para as outras pessoas. E, ao contrário das regras da matemática, tudo quanto subtraímos de nós, entrou, depois, às catadupas! E entrou diretamente para um armazém que fica com ainda mais capacidade para dar, dar, dar... Fica no coração! E, no final, apesar dos pesares, de nos ter custado, de nem sempre tudo ter sido um "mar de rosas", de ter havido momentos em que nos deu vontade de "hibernar"... fica aquela sensação de que valeu imenso a pena todo o cansaço, que agora nos parece uma bagatela. Que o faríamos uma e outra vez. Mil vezes, se fosse preciso.
O "cansaço infeliz" cansa muito mais, pois não é generoso, preocupa-se consigo mesmo ou com retribuições... Contudo, o cansaço feliz também exige descanso e férias, mas não "descansos infelizes", frutos de um certo egoísmo, às vezes subtil, da procura do "meu" descanso e do dolce far niente... Quando enveredamos por aqui, reparamos depois que este far niente tem muito pouco de dolce e de descanso e muito de cansaço e de efeito "miragem"... E é esta miragem que nos engana, porque não nos enche, não nos leva a lado nenhum, nem sequer ao descanso próprio, que também é necessário. Parece antagónico, mas, por vezes, descansamos mais num projeto de voluntariado do que passando dias e dias na praia! Realmente, é super verdade que o descanso próprio exige que nos preocupemos com o bem/ descanso de quem está à nossa volta.
Assim, dêmos espaço para a felicidade do nosso cansaço e do nosso descanso! :)

There´s no place like home...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Roadtrip

Mapas de uma vida. Marcas de alegrias extasiantes e das tristezas mais profundas.
Sinal de vidas cheias.
 Mapas de um passado. Marcas de descendências e de ascendências.
Sinal de que há muito mais a caminho.
 Mapas da idade. Marcas do amor vivido e das experiências sentidas.
Sinal de que valeu a pena. 
As mulheres bonitas e cheias de rugas sempre me desconcertaram.
Quando conheci alguma ou me deparei com outra, ficava à espera que dessem o primeiro passo, que me contassem tudo. Tudo o que gerou aqueles traços que o tempo não apaga, aquelas marcas de água que de transparentes nada têm, porque escondem tanta História. 
Tão bonitas quanto enigmáticas.
Na maior parte das vezes acabei por não desvendar os seus segredos.
Porque a maior parte passou por mim na rua e seguiu o seu caminho.

A minha bisavó Manuela não tinha rugas. Ou se tinha, tinha menos do que eu, com os meus 22 anos. Viveu pouco tempo? Não. Morreu aos 98 anos. Viveu como viviam as senhoras na altura - duas empregadas para cada filho, as filhas não estudavam e estavam em casa a fazer companhia, a aprender francês e a tocar piano. Os homens caçavam, e chegavam cedo a casa. Não conheceu os momentos duros que a vida pode oferecer.

Já bem diferente foi a história da sua filha e minha avó Maria Teresa, uma mulher cheia de vida e por isso cheia de rugas. Era uma mulher linda, daquelas belezas que se desvendam com o tempo. Conheci a sua cara de cor, e ainda agora, passados dois anos da sua partida, relembro cada pormenor da sua fisionomia. Era uma mulher feliz. Também viveu até tarde, embora menos uma década que a sua mãe. Mas ao contrário desta, viveu a Vida.
Daquela forma que vale a pena e nos faz querer pedir o livro de receitas e as doses exatas, e por fim, replicar.


E por termos sido parte dessa vida, todos sabíamos a que momentos correspondiam as suas rugas:
Ao meu avô David, o amor da sua vida, que mais tarde ficou doente com bipolaridade.
A oito filhos e por isso oito alegrias das extasiantes.
A uma última filha, Maria, que nasceu com trissomia 21, algo pouco aceite na sociedade de então. E que esteve ao seu lado até ao último segundo, a melhor enfermeira que a minha avó poderia ter pedido.
À partida da penúltima filha, Leonor, que não resistiu a um cancro. 
À contagem de tostões, como as mulheres da atualidade bem sabem fazer.
Às mil preocupações e duas mil alegrias com os 8 filhos, 15 netos e 13 bisnetos.

Soube viver como alguém que sabia que não se ficaria por aqui. Mais a esperava. Porque havia ainda tanto espaço de pele jovem para encher esse mapa que foi a sua vida.

Fez a sua Roadtrip, até à última ruga.

Depois de algum tempo

Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.
E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.
Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em vão.
Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam. E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso. Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas segundos para destruí-la, e que poderás fazer coisas das quais te arrependerás para o resto da vida. Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendermos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobres que as pessoas com quem tu mais te importas são tiradas da tua vida muito depressa, por isso devemos sempre despedir-nos das pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.
Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser. Descobres que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto. Aprendes que, ou controlas os teus atos ou eles te controlarão e que ser flexível nem sempre significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, existem sempre os dois lados.
Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer enfrentando as consequências. Aprendes que paciência requer muita prática. Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te empurre, quando cais, é uma das poucas que te ajuda a levantar. Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários já comemoraste. Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que supunhas.
Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são disparates, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobres que só porque alguém não te ama da forma que desejas, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo. Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, poderás ser em algum momento condenado. Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes.
Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, em vez de esperares que alguém te traga flores. E aprendes que realmente podes suportar mais... que és realmente forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida! As nossas dádivas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar.. se não fosse o medo de tentar.
thank you sir William Shakespeare

Já somos 200!

Queridas amigas, já somos 200 as inscritas para o próximo almoço Mulheres do Séc. XXI esta sexta feira dia 6 na Estufa Real, mas ainda temos vagas! Por isso, se és Mulher, se acreditas nos valores humanos e os queres defender, independentemente da tua idade e profissão, temos um lugar neste almoço para ti! O mais fantástico destes almoços, é que conseguimos reunir "à mesma mesa" Jornalistas, Deputadas, Donas de Casa, Condutoras, Professoras, Juizas, Advogadas, Cabeleireiras, Esteticistas, Artistas, Arquitectas, Mães a tempo inteiro, Reformadas, Doutoradas, Acessoras, Economistas, Empregadas de restaurante, Amas, Educadoras, Empresárias, Secretárias, Farmacêuticas, Psicólogas, Veterinárias, Dentistas, Médicas, Jardineiras, Contadoras de histórias, Bibliotecárias, etc, etc, etc... Não é simplesmente fantástico? Conto ver todas na Estufa Real na sexta feira, pontualmente às 12h30, quem puder chegue um pouquinho antes para facilitar as inscrições! Até lá :)

We HE-ar


Brandi Carlile - Hard Way Home
[Country Music]

Manas de azul e branco

Lembrei-me disto quando li isto (obrigada Maria!).

3 saris - dois para alternar dia-sim, dia-não e um para dias de festa - feitos à mão por doentes de lepra. Um balde para os lavar diariamente. Uma barra de sabão azul. Quilos de alegria. Vozes de anjo.

Com esta reduzida lista de ingredientes, Sobre-vivem as manas, como lhes chamamos amorosamente. Sem protagonismos, sem falsas modéstias, sem barreiras, são assim as Missionárias da Caridade.

Tive a oportunidade de estar com elas na Índia em dois anos diferentes, 2009 e 2010. De cada vez, mudou alguma coisa na minha vida. Mudou a necessidade do silêncio para ouvir Alguém maior. Mudou o número de peças de roupa no armário. Mudou o amor aos outros, quando esses outros estão em condições tais que nem sabem constituir alguém.

Mudou tudo por dentro. Vinha mais apegada que nunca às relações, e mais desapegada que nunca às pessoas. Porque as ouvia a dizer, sem dramas, que uma missionária da caridade envia uma carta por mês para casa e que só se volta a encontrar com a família ao fim de 10 anos, 120 cartas depois. Vinha centrada no que realmente faz correr sem cansar.

Por fora também mudou muita coisa. Quando voltei, em pleno Verão, não conseguia andar com roupa que mostrasse mais do que tornozelos, pescoço, cara e ante-braços. Vinha radiante. Vinha desprendida de telemóveis, de i-pods, de banhos de água quente, de maquilhagem, de chocolates, de coisas. Andava descalça por tudo o que era sítio - casa, rua, carro - o trânsito infernal mas extremamente organizado da A5 causava-me dores de cabeça e a ausência de estrelas no céu lembrava-me as saudades que tinha do campo indiano, das luzes nas palhotas, do silêncio dos anjos.

E relativizou tudo o que até então era mais-que-certo. E mostrou que não há maior alegria do que dar tudo o que temos, porque de facto muito mais recebemos. E ajudou-me a dar muitos sim's, um maior que todos os outros, em grande parte por ter aprendido com a sua entrega de amor e a sua contemplação, nas ruas confusas e barulhentas de Calcutá.

Saudades de chegar à casa-mãe e ver, à porta, o fecho a indicar "Mother Teresa M.C. - IN". Porque o seu corpo aí se encontra agora enterrado, e porque o sorriso daquelas noviças e manas mais-velhas é o legado que Agnes Gonxha nos deixou.


Ainda me lembro muito delas. Ainda tenho saudades de estar ao lado das manas a ouvi-las cantar. E de as ver a cuidar dos doentes com todo o amor que há neste Mundo e no outro. E daqueles abraços quando sabiam que mais precisávamos deles.
Porque são acima de tudo Mães da Caridade - M.C.

Tive a oportunidade de continuar o trabalho em Portugal, em Chelas, onde outras manas vivem. É necessária muita ajuda. Se o quiserem fazer digam-nos, porque temos os contactos necessários.

domingo, 1 de julho de 2012

Parabéns meu querido Sporting! (o título não pode ficar a verde??)


1 de Julho de 1906

"Esforço, Dedicação, Devoção e Glória. Eis o Sporting." - Lema do Clube

Desculpem o post mais pessoal e um pouco tendencioso em termos "clubísticos" mas não podia deixar passar o dia sem fazer uma referência ao meu querido clube. Hoje faz anos o meu Sporting (e a Leonor Cruz Fernandes!), 106 anos de uma longa História repleta de conquistas e glória. 
Como é que eu fiquei a amar este clube de uma forma tão incondicional? - perguntam vocês. Resposta: juntaram-se 2 famílias fanáticas. O meu bisavô materno, que não tive oportunidade de conhecer, foi  atleta, jogador da primeira equipa e internacional português, diziam que era um avançado letal (acho que o mesmo se pode comprovar nesta fotografia no Museu do Sporting).


O meu avô paterno António foi, talvez, um dos principais responsáveis pela transmissão desta doença. Antigo atleta e dirigente, dedicou a maior parte da sua vida ao clube. Foram 97 anos de amor incondicional, que se desdobraram em muitas histórias contadas aos filhos e netos. Tenho muitas para contar e pouco tempo para o fazer porque tenho um exame na 2ª. No entanto, já tenho todo um post planeado com estas aventuras do meu avô para quando ficar de férias.

No dia de hoje, deixo-vos apenas um resumo (muito pequeno) da fundação do Sporting:


'Vou pedir dinheiro ao meu avô e ele me dará dinheiro para fundar um outro clube', prometeu José Alvalade no momento em que ele, os irmãos Gavazzo e uma vintena de seguidores (todos amantes do desporto) abandonaram o Campo Grande Foot-Ball Club por discordarem da vertente mais social que o clube estava a seguir.
Reconhecido oficialmente o Sporting Clube de Portugal, em Maio de 1906, José Alvalade formulou o célebre voto: 'Queremos que o Sporting seja um grande clube, tão grande como os maiores da Europa'. A sua ambição representou sempre, ao longo desta história centenária, uma meta permanente no horizonte de todos os atletas, equipas e adeptos Sportinguistas!

José Alvalade fez história ao fundar um clube verdadeiramente ecléctico numa altura em que a cultura desportiva em Portugal era ainda muito incipiente. Este jovem fundador (com apenas 21 anos), foi o 3º Presidente da história do Sporting Clube de Portugal, integrou numerosas direcções, mas foi sobretudo um extraordinário promotor de instalações desportivas, factor determinante para o rápido crescimento e primeiros sucessos desportivos do emblema leonino. Em sua homenagem, e porque os Estatutos do Clube assim o estabelecem, o principal recinto desportivo tem o seu nome.





Aqui está a prova de que os meus irmãos e eu somos um bocado doentes. Para além de estarmos equipados dos pés à cabeça (reparem só na minha camisola às riscas verde e branca), ainda temos este cachecol XXXL que serve de manta nos dias de jogos mais frios. Sim, porque mesmo a chover e com um frio de rachar, estamos lá a época inteira. A jogar bem ou mal, a ganhar ou a perder, estamos lá...porque no amor é assim!
To be continued...

Saudações Leoninas