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segunda-feira, 10 de abril de 2017

O casamento não traz felicidade | Por Henrique Raposo

Henrique Raposo fala da grande maratona da vida: o Casamento, claro e pertinente: o que é o amor, o que é a entrega e o que é a paixão: vale a pena ler:


Não há casamento sem sacrifício pessoal. Os primeiros anos dos filhos, por exemplo, são anos de trincheira.O amor não é fofura, é ringue de boxe.

Pensar que o casamento é sinónimo automático de felicidade é talvez o grande erro da minha geração. O “feliz para sempre” é um equívoco, porque transforma o casamento numa sala de chuto de afectos, fofuras e sonhos. Pior: transforma o casamento real num prolongamento de um casamento idealizado ao longo do namoro. Ou seja, o “feliz para sempre” é a eternização da paixão adolescente. Um sarilho, pois o casamento é outra coisa, é uma aliança entre duas pessoas que se amam para lá dos afectos flutuantes.

Quem é casado sabe do que falo: há anos bons e há anos maus. Se pensarmos apenas na nossa emoção, no nosso prazer, na nossa realização pessoal, há momentos muito duros no casamento. Não há casamento sem sacrifício pessoal. Os primeiros anos dos filhos, por exemplo, são anos de trincheira.

A relação do casal e o próprio trabalho vão para o banco do pendura, ao volante ficam as fraldas, os banhos, as birras, as noites mal dormidas, a inexistência de férias ou viagens, etc. Mas são estas alturas sacrificiais que definem a força de um casamento. O amor não é fofura, é ringue de boxe.

Hoje procura-se a felicidade no sentido do prazer imediato e pessoal. E espera-se que o casamento seja um fornecedor desse prazer centrado no “eu”: os filmes e as séries da HBO que o casalinho vê no sofá, o sexo, as viagens que o casalinho anuncia no Facebook, os concertos e festivais de verão, etc. Sucede que o casamento não é esta passerelle.

Como diz Tiago Cavaco no livro “Felizes para Sempre e outros equívocos”, o casamento implica “abdicar de coisas que nos agradam”. O casamento não é sobre nós, é sobre os outros que nos rodeiam. Nós não casamos para sermos felizes, casamos para fazer os outros felizes. O casamento não é um espelho do nosso prazer, é um pilar de outras pessoas: é um pilar dos filhos que geramos e criamos, por exemplo. E, se é um pilar de infâncias, também é um pilar de velhices: um matrimónio também é um amparo dos sogros que se herdam.

Ora, ser este pilar implica um espírito de renúncia que é a negação perfeita da nossa cultura centrada numa felicidade entendida como prazer. É por isso que temos uma taxa de divórcio de 70%. É caso para perguntar: apenas 30% dos casados da minha geração compreendeu que o casamento é o início da vida adulta e não um prolongamento da adolescência?

Moral da história? É importante refazermos o conceito de felicidade. O casamento ensina-nos a procurar a felicidade nos outros, nos filhos que crescem, na ajuda que se dá aos sogros, na ajuda que se recebe dos sogros, nas provações que se superam em conjunto – as ânsias profissionais, o aperto na carteira, as querelas familiares, a unha do pé encravada, a quimio, aprender a lidar com o feitio do outro, etc. Se quiserem, o casamento comporta a felicidade tal como o maratonista a entende.

Quem já fez ou faz atletismo sabe do que estou a falar: correr longas distâncias não dá prazer; ver um filme, ler um livro, estar na praia, beber um vinho – tudo isto dá prazer. Mas correr 40 km não dá prazer, dá dor. Porém, quando acabamos uma corrida assim, sentimos algo que está para lá do prazer, sentimos uma força que vem do princípio do tempo, sentimo-nos abraçados por uma força que vem do tempo em que coisas ainda nem sequer tinham nome.

terça-feira, 28 de março de 2017

O exercício de questionar

Nós portugueses temos o hábito de ler estudos, sobretudo os estudos dos nossos sociólogos da moda (confesso que uma prova do meu cansaço, é que para mim basta ouvir o nome da Maria Filomena Mónica, e fujo a 7 pés).
É importante não ficar apático perante as conclusões sociais dos dados científicos: questionar, esmiuçar e meter as ideologias à parte: as correntes utilitarista e a falta de crença na raça humana, eis as questões que devemos levantar e responder, quando se fala da crise da instituição do casamento, em território nacional: 
"O conhecimento não se reduz ao sociológico. E a ética, a filosofia ou a psicologia? Qual o sentido do casamento e da fidelidade na pessoa e na sociedade? Apenas capricho “conservador” dos tempos? Qual o lugar do casamento e da família na estabilidade emocional dos cônjuges e dos filhos? Qual o lugar da complementaridade dos sexos nesta equação? Qual, ainda, a influência do compromisso na construção do amor e do cuidado com a descendência? Que futuro queremos se já metade das crianças nascem fora do contexto de qualquer união, seja ela casamento ou outra? Que estabilidade queremos dar às famílias e às crianças?"
António Pimenta Brito, A crise do casamento em Portugal

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Silêncio de Martin Scorsese (II)

Continuo sem ver o filme - como escrevi aqui - contudo, até ao dia, acompanho pelos comentários e pelas críticas, não feitas por mim, mas elaboradas por aqueles que tenho em consideração. Admiro a consciência história e recta de José Miguel Pinto Santos, penso que o economista tocou em boas questões - ou melhor na boa questão: a veracidade dos factos -  a diferença entre a estória e a história.
/Cada vez que conheço mais a verdadeira história, mais fé tenho\




Aqui fica o artigo que vale a pena ler:

"O problema fundamental da nossa era não é económico nem financeiro. Tão pouco é social ou político. Nem sequer é o populismo ou a proliferação de leis e regulamentos que coartam a liberdade e iniciativa dos indivíduos. A grande crise da Europa e da sua civilização é filosófica. Mas não é principalmente uma crise nem metafísica nem sequer ética. A nossa grande falha civilizacional hoje é epistemológica. Já não se acredita que a realidade seja percetível objetivamente. Vivemos numa época em que todos somos Pilatos, prontos a ripostar “o que é a verdade?” e, ato continuo, virar-Lhe as costas com mais desplante e cinismo que o do verdadeiro Pôncio. Hoje, o ceticismo já não é um tique chique de professor de filosofia, como foi no século dezanove, mas um reflexo imbuído em todos os cidadãos pelo sistema escolar obrigatório.

Assim é natural que a ficção tenda a se sobrepor à realidade. Vivemos na realidade virtual na política, na economia e na gestão empresarial. Quando se desvanece a convicção que o conhecimento humano é capaz de aceder à realidade e apreendê-la restam as opiniões e sobra a crença de que de todas as opiniões têm igual valor. Nesta situação as “narrativas” tornam-se mais relevante que os fatos.

As narrativas do PS sobre a TSU e da imprensa europeia sobre Hillary Clinton dariam bons exemplos. Mas outro exemplo, quase tão mediático, é-nos oferecido pela narrativa do filme “Silêncio”. Que ficção não é História é a desculpa do costume para casos destes. Como a narrativa de “Silêncio” é vendida como ficção, argumenta-se que não tem de corresponder aos fatos estabelecidos pela ciência histórica. O problema é que, como já não se acredita na possibilidade de qualquer réstia de objetividade na História, e também porque se consome cada vez mais ficção, a narrativa que fica na cabeça é a da ficção e a que desaparece é a da História. A ponto dos jornais se referirem à ficção de “Silêncio” como “um retrato histórico”. A atitude mental da nossa época é conducente a que o retrato virtual oferecido por Scorsese sobre Cristóvão Ferreira e os dois jesuítas que vão para o Japão em sua busca se torne mais real que a realidade histórica cristalizada em dezenas de manuscritos do século dezassete que chegaram até nós.

Mas qual é o retrato histórico de Cristóvão Ferreira (c. 1580—1650) que nos oferecem as fontes do século dezassete? Para quem estiver interessado em saber mais existe material detalhado e acessível na net (meu aqui e outro melhor aqui). Mas podemos resumidamente referir que Ferreira nasceu em Torres Vedras, arquidiocese de Lisboa, cerca de 1580, e que entrou para a Companhia de Jesus em 1596. Fez dois anos de noviciado em Campolide e depois, a partir de 1598, frequentou o Colégio das Artes em Coimbra. Em Abril de 1600 embarcou numa nau para a Índia e chegou a Macau em Agosto de 1601. Aqui completou a sua formação intelectual frequentando os cursos de filosofia (3 anos) e teologia (4 anos) do Colégio da Madre de Deus. Foi ordenado em finais de 1608 e depois embarcou para o Japão na primeira nau disponível, na Madre de Deus, precisamente na sua última viagem. Ferreira não assistiu ao épico combate que resultou na destruição desta embarcação em Nagasaki, porque logo a seguir a desembarcar foi para o seminário de Arima. Em Macau e em Arima aprendeu o japonês a ponto de se tornar completamente fluente. Em 1610 foi para a capital imperial onde se tornou conhecido e popular nos círculos intelectuais, especialmente entre o grupo que veio dar origem à wasan, a matemática japonesa, e entre os cosmólogos independentes, que começavam então a contestar a cosmologia e o calendário oficiais. Também ficou conhecido, no imaginário japonês, pela prática ativa das sete obras de misericórdia corporais: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, visitar os encarcerados, abrigar os sem abrigo, visitar os doentes e sepultar do mortos.

Quando se deu a proscrição do Cristianismo e a expulsão dos missionários em 1614 Ferreira passou à clandestinidade. Em 1617 deixa a capital e passa a exercer a sua atividade em Kyushu, especialmente em Nagasaki e arredores. Em 1633 o padre Sebastião Vieira (1571—1634), o responsável pela missão jesuíta no Japão, também ele na clandestinidade, é preso pelas autoridades e Ferreira assume a direção de empresa jesuíta. Por pouco tempo, porque no ano seguinte também ele é capturado. O que tornou Ferreira notável e conhecido em todo o mundo, de Nagasaki a Edo e do Rio a Cracóvia, foi o de ter sido o primeiro missionário a apostatar. A Cristandade ficou incrédula e os jesuítas em choque. Fizeram-se jejuns e penitências públicas por todo o lado, de Goa a Vilnius. Antes dele outros padres e irmãos, e muitas centenas de leigos, tinham sido submetidos à laje, ao cavalo de madeira, à suspensão, ao caldeirão, à fogueira, à cruz e à fossa sem cederem nas suas convicções relativamente à Verdade. Ferreira tinha sido posto na fossa.

A fossa, diga-se de passagem, era considerado o tormento mais excruciante de todos, de acordo com relatos coevos que chegaram até nós. O supliciado era revestido com um mino, uma fatiota de palha de arroz, atado com força à volta de todo o corpo, nos pés e pernas, abdómen, braços e tórax, e pendurado de cima para baixo mas de modo que a cabeça ficasse numa fossa, onde usualmente era posto excremento; um sobrado, apenas com espaço para o pescoço, era posto à volta do cachaço para que não pudesse sentir a luz e fazer uma ideia da passagem do tempo; e eram feitos dois golpes nas têmporas de modo a evitar uma morte prematura devido à subida da pressão sanguínea no cérebro. E, já agora, valerá a pena notar que não havia intervalos para refeições, sonecas, ou outras atividades motoras ou excretoras: uma vez na fossa só a morte ou a submissão às exigências da política estatal interrompia a violência. As dores, que se começavam a sentir pouco depois da pessoa ter sido pendurada, são sempre descritas como sendo indiscritíveis: todas as fontes referem que nenhum outro tipo de dor pode ser dado em comparação. A morte ocorria usualmente ao fim de dois a cinco dias, mas uma das mãos era deixada livre fora do mino para que a vitima da violência do Estado pudesse dar um sinal previamente estipulado de que acedia às exigências que lhe eram feitas. Juntamente com Ferreira, a 18 de Outubro de 1633, foram postos na fossa outros cristãos, um dos quais o padre Nakaura Julião (1568—1633), que tinha sido um dos quatro embaixadores japoneses à Europa em 1582-1590 e colega de Ferreira no Colégio da Madre de Deus. Mas enquanto Nakaura exalou o seu espirito ao fim de quatro dias de tortura, Ferreira, que era o chefe, fez o sinal com a mão ao fim de seis horas.

Que Ferreira tenha apostatado levado pela angústia do sofrimento que os cristãos padeciam é uma estória bonita, e que consola a muitos espíritos contemporâneos, mas é ficção. É de frisar que os diálogos de “Silêncio” não são apenas ficção, muitos deles são ficção improvável. Nenhum dos que com ele estavam na fossa foi libertado, e quase nenhum das centenas que se lhe seguiram quiseram ser poupados ou foram poupados. Os japoneses do século dezassete eram rijos, rijos na fé e na incredulidade, rijos na capacidade de sofrer e rijos na capacidade de infligir sofrimento. Seres muito diferentes dos leitores fofos e adocicados de Endo Shusaku na década sessenta, e dos cinéfilos de hoje.

Depois da apostasia Ferreira foi naturalizado japonês, foi-lhe atribuído o nome de um criminoso que tinha sido justiçado, Sawano Chuan, foi-lhe imposta como família a mulher e os filhos do condenado, e foi feito funcionário público. Nas suas novas funções Sawano Chuan participou como interrogador de cristãos que eram torturados, com o fim de obter denúncias de outros correligionários, e no processo ganhou má reputação entre os cristãos japoneses. Foram-lhe também encomendadas várias obras pelo governo, entre as quais um tratado anticristão, Kengiroku, e um tratado sobre a cosmologia ocidental, Kenkon Bensetsu, que tem como peculiaridade ser o primeiro tratado escrito em japonês em que se expõe a esfericidade da Terra, e em que se explica como se pode perceber que na realidade esta é de fato redonda, e que não se trata de apenas mais uma teoria que quem quiser pode aceitar se lhe apetecer.

Os personagens Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe da estória são ficção, mas a estupefação de muitos jesuítas ao ouvirem da apostasia fez com que de fato alguns fizessem longas e arriscadas viagens para contactar Ferreira e chamá-lo à razão. O primeiro foi o padre Marcello Mastrilli (1603—1637), que partiu da longínqua Itália e em 1637 chegou ao Japão, onde foi imediatamente apanhado e posto na fossa sem chegar a se encontrar com Chuan ou com cristãos japoneses. Como ao fim de três dias ainda não tinha morrido, as autoridades impacientaram-se e decidiram acelerar o processo com a sua decapitação.

Outro foi o padre Pedro Kibe Kasui (1587—1639), que viajou clandestinamente do norte do Japão para se encontrar com Chuan. Também foi preso mas teve a sorte de ver a fruição do seu desejo de ser interrogado pelo apostata. Aproveitou-a para lhe implorar que regressasse ao Cristianismo, mesmo com o custo da vida. Não teve no entanto qualquer poder persuasivo no ex-jesuíta, foi posto na fossa e morreu. Foi beatificado em 2008.

Seguiu-se em 1643 um grupo composto pelos padres Giovanni Rubino (1578—1643), Alberto Mezchinski (1598—1643), Diego Morales (1604—1643), Francisco Marques (?—1643) e António Capace (1606-1643) a que se adicionaram três catequistas. Rubino, que tinha sido provincial jesuíta na India, partiu de Goa mas as autoridades em Macau não o deixaram rumar para o Japão. Teve então de ir para Manila, onde arranjou um junco para o seu grupo. Assim que puseram pé em Kagoshima foram presos antes de qualquer ensejo de contato com cristãos locais. Foram tratados com todas as cortesias da etiqueta japonesa para com os inimigos do Estado: começaram na laje e terminaram todos, literalmente, na fossa.

Finalmente, um último grupo, composto pelos padres Pedro Marques (1575—1657), Afonso de Arroyo (1592—1643), Giuseppe Chiara (1602—1683), Francesco Cassola (1603-1644), André Vieira (1611-1678) e cinco leigos, tentou também reconverter Chuan. Nenhum deles tinha sido discípulo de Ferreira, mas não há que duvidar da preocupação fraternal que nutriam pela sua vida espiritual. Foram apanhados em Oshima por um grupo de pescadores e enviados para Edo, onde foram processados. Ao contrário das suas expetativas não lograram convencer Chuan, antes foram convencidos por ele, se bem que com a ajuda do argumento esmagador da laje e outros instrumentos coadjuvantes. Depois de apostatarem também eles receberam um nome japonês, mulheres de ladrões decapitados e uma pensão vitalícia para seu sustento. No entanto, ao contrário de Chuan que gozava de alguma liberdade de movimentos em Nagasaki, estes foram confinados, até à morte, no Kirishitan Yashiki, uma prisão-quinta, em Edo, que os isolava de todo o mundo. Embora não tenham estado em contato com cristãos japoneses terão sido estes os missionários que serviram de inspiração para o Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe de “Silêncio”.

Não há dúvida que a novela de Endo Shusaku é de uma beleza literária notável ao retratar a complexidade dos sentimentos de um cristão empenhado e convicto sob a pressão atroz dos sofrimentos próprios e daqueles que estima. E o mesmo se pode dizer do filme de Scorsese em que o encanto da paisagem e a beleza da banda sonora são acrescentados ao trama empolgante do drama. No entanto é lamentável que ambos tentem sub-repticiamente passar por realidade o que não passa de ficção usando uma técnica ardilosa: juntando a um personagem histórico de carne e osso duas figuras fantasiosas de padres que nunca existiram. O autor poderia ter escrito a mesma estória sem lá ter posto o personagem histórico Cristóvão Ferreira e a novela seria só novela; também poderia ter feito um relato fatual, com o personagem histórico Cristóvão Ferreira acompanhado de outros personagens históricos, como Chiara ou Cassola, e teria então escrito História. Mas escolheu misturar tudo.

Qualquer argumento em defesa da realidade histórica e contra a sua contaminação por fantasias será de difícil aceitação na idade do pokemon-go, da geringonça e de Donald Trump Presidente. Houve eras em que ficção era ficção e negócios eram negócios. Durante séculos filósofos acreditaram que o conhecimento da realidade era possível. Como consequência despendiam um esforço considerável em justificar que o conhecimento que propunham se adequava á realidade física, social e moral, e faziam-no com entusiasmo e otimismo. Hoje esse entusiasmo e otimismo desapareceram. Podemos até comparar a epistemologia da nossa civilização ao Sebastião Rodrigues do filme: otimista e produtiva enquanto manteve a fé; seca, cínica e dilacerada depois de apostatar."

José Miguel Pinto Santos,
Professor na AESE Business School

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Porque hoje é um grande dia | porque vale a pena ser fiel


As vidas apaixonadas não são comerciais, vendem pouco, não são populares...
As vidas apaixonadas são entregues, são as melhore, são as maiores...
De hoje para a história: AQUI



domingo, 22 de janeiro de 2017

"DEI-ME CONTA DA SORTE QUE TENHO"





Maria Campos nasceu a 22 de Julho de 1997 no Centro Clínico de Lisboa do SAMS. “Passei a maior parte da minha infância na capital mas íamos muitas vezes à Ericeira porque temos uma casa lá. Tenho ótimas recordações”. 
A Maria é uma rapariga alta, de olhos grandes e escuros em forma de amêndoa. O cabelo castanho cai-lhe sobre os ombros formando suaves ondas que lhe dão um aspecto descontraído. Mostra-se sorridente e expressiva enquanto mistura o chantilly com o seu café longo num dos espaços mais frequentados do Saldanha: “ A Choupana”. Há vários anos que aquele estabelecimento é o seu local preferido para ir lanchar com os amigos. “É um sítio ótimo para conversar e tem imensa Nutella. Eu sou viciada em Nutella!”. 

 O olhar dela parece vaguear algures entre os croissants acabadinhos de fazer com um delicioso recheio de chocolate e a sua memória, à procura de algumas recordações de infância. “Definitivamente a parte que me lembro melhor da minha infância foi quando fiquei com diabetes aos 7 anos. Foi duro e claro que teve um lado positivo e outro negativo”. Sente que graças a esta doença cresceu mais depressa que o resto das pessoas da sua idade e ganhou uma maturidade prematura. “Com a Maria eu falo sobre tudo, sem filtros. E é estranho porque ela é mais nova do que eu. Mas a verdade é que desde sempre teve um nível de maturidade muito superior ao esperado para a idade dela. Abordamos os nossos problemas e tentamos sempre lidar com eles de uma maneira madura e adulta”, afirma a Inês, amiga e vizinha da Maria há cinco anos. 


Claro que a diabetes deixou nela algumas consequências menos positivas. “Sentia-me diferente das outras pessoas da minha idade. Durante quatro anos comia sempre o mesmo e quase não provava doces. As minhas amigas passavam a vida a comer gomas e chocolates e isso quando se tem sete anos custa muito”. Admite que muitas vezes ainda não consegue aceitar a diabetes e que lhe custa lidar com ela. Hoje em dia já pode comer todos os alimentos com moderação. Utiliza uma máquina infusora de insulina que lhe permite controlar melhor a doença (se for bem utilizada) do que as antigas canetas que tinha quando era pequena. Os olhos adquirem uma expressão mais dura, apesar de manter sempre o sorriso nos lábios, enquanto fala da diabetes. A sua saúde não se encontra no melhor estado no presente e para uma rapariga nova e aventureira como a Maria não é nada fácil. No entanto, deu-se conta com o passar do tempo que o sofrimento também sabe ensinar. “Dou muito mais valor à minha vida graças a isto. Tenho que lutar muito mais por mim mesma, comparativamente a outras pessoas porque é uma coisa da qual depende toda a minha vida”. 


A Maria vive num condomínio na cidade Lisboeta com os pais, a irmã Inês de 14 anos e o Afonso de 11 anos. Sempre se sentiu muito ligada ao pai devido às várias parecenças em termos de gostos e interesses. A Maria valoriza muito a família e esforça-se por melhorar ao longo dos anos a sua convivência em casa. “ As duas maiores qualidades da Maria são a sua enorme sensibilidade e disponibilidade para os outros”, afirma o pai. “Por vezes é conflituosa mas cada vez menos. Revela um sentido de família apuradíssimo, é muito amiga dos pais e dos irmãos, é muito organizada e dialoga muito sobre tudo”. 

Frequentou até ao 12º ano o Colégio Mira Rio no Restelo. “É só para raparigas mas gostei muito e adaptei-me bem”. Fez muitas amigas no colégio com as quais ainda mantém uma sólida amizade. “ A Maria é espectacular, dedica-se a cada pessoa pensando no que ela mais precisa.” conta a Madalena, amiga do Colégio. “ O que mais gosto de fazer com a Maria são festas de pijama. São momentos mesmo divertidos onde podemos conversar, cozinhar, ver filmes e divertirmo-nos!”.
 Cozinhar é o hobbie preferido da Maria desde os nove anos de idade. Começou por receitas simples como pãezinhos e bolachas de manteiga, passando depois para todo o tipo de cozinhados. “Adoro cozinhar italiano e indiano mas normalmente sou melhor nos doces. As minhas especialidades são brigadeiros e cheesecake de frutos silvestres”. Gosta de cozinhar principalmente porque considera a gastronomia como algo capaz de criar bons momentos e gerar sorrisos facilmente. 

Estudou bastante durante o secundário e aprendeu a importância de trabalhar com seriedade e dedicação. Conseguiu acabar com uma média de dezoito valores, o que lhe abria muitas portas. A sua meta na altura, era chegar a ser diplomata e pensou que uma boa maneira de alcançar esse objetivo seria entrando para o curso de Direito na Católica. “Direito é um curso mais abrangente do que Ciência Política e Relações Internacionais (CPRI). O meu pai fez o mesmo na altura e achava que era o melhor caminho para mim”. O ambiente da faculdade fascinou-a ao início. Gostou muito da organização da Católica e dos docentes que considerava muito competentes. Arranjou rapidamente alguns amigos devido à sua personalidade extrovertida. Sentia-se mais crescida e independente sendo universitária. Todavia, o curso não a deixava satisfeita. “ Andei a arrastar-me por direito durante seis meses. No geral estava muito desanimada porque sentia que aquele não era o meu caminho, que não era aquilo que eu devia estar a fazer”. A frustração da Maria não tardou em crescer e os pais decidiram levá-la a uma psicóloga para fazer um teste psicotécnico. Os resultados foram claros: CPRI ou Psicologia. “Decidi optar por CPRI na FCSH_ NOVA. Estou a gostar imenso, tem muito mais a ver comigo”. 


Quando decidiu desistir do curso de Direito, o segundo semestre mal tinha começado. A Maria deparou-se então com um dilema: ou terminava o primeiro ano da licenciatura ou desistia a meio. Acabou por decidir sair da Católica mas precisava de arranjar alguma coisa para fazer até às férias do verão. “ Sou aquele tipo de pessoa que não consegue ficar parada, não dá. É impossível! Por isso decidi que ia fazer voluntariado”. Há muitos anos que vai fazer companhia a idosos, principalmente no Convento da Encarnação, que ajuda em creches e distribui comida aos sem-abrigo. 

Fazer este tipo de voluntariado sempre lhe deu muita alegria porque a obrigava a esquecer-se de si mesma e dos seus problemas.
“ Para mim fazer voluntariado é dar sem esperar nada em troca. É algo que me faz 100% feliz”. 
A Maria ouviu falar da AIESEC que organiza estágios e programas de voluntariado para estudantes e fez uma pesquisa intensiva durante uma semana, enviando depois algumas candidaturas. A primeira resposta que recebeu foi de Biscke, na Hungria. Ficou delirante de alegria pois era o seu destino preferido e pensava que podia ser muito bom ajudar as pessoas num campo de refugiados. “O que eu mais gosto na Maria é o facto de se entregar às pessoas. Principalmente a quem precisa. E fâ-lo com o coração todo" afirma a Inês, vizinha da Maria. 
Em casa, a notícia da sua decisão foi bem recebida. “ Apoiei-a desde o primeiro momento por perceber que era isso que a Maria queria e por sentir que tem um dom e uma vocação natural para o que ia fazer. Alguma preocupação, derivada a ser a primeira vez que a Maria, insulinodependente, iria estar tanto tempo "fora da base" num país estranho”, conta o Pai.

Maria ajeita a camisa verde tropa com uma das mãos enquanto dá um sorvo no seu café com a outra. A sua disposição alegre às 10 horas da manhã chama a atenção e possui um entusiasmo contagiante. A Inês, que convive frequentemente com a Maria, confirma que há momentos que passa com a amiga em que sente uma mudança. “ Um dia fomos as duas a um restaurante comer. E no meio do jantar a Maria começou-me a falar sobre a sua maneira de estar na vida. Não consigo descrever o que se passou naquela noite mas posso dizer que esse momento abriu me muitas portas na minha vida. É daquelas raras pessoas que consegue trazer o que há de melhor em nós”.
Chegou o dia da partida. Foi a 16 de Maio de 2016 para Biscke mas só chegou ao campo três dias mais tarde devido à necessidade que tinha de tratar de uns assuntos em Budapeste. Quando chegou ao campo o primeiro impacto foi assustador. “ Nós vemos muitas coisas na televisão mas pisar aquele solo completamente diferente é mesmo alarmante”.
Qualquer pessoa que conheça bem a Maria responde prontamente que a sua maior qualidade é a coragem. “Lembro-me que quando tinha cerca de 2 anos, ao estar a pular em cima do sofá, a Maria desequilibrou-se, caiu e bateu com a cabeça na quina do degrau da lareira, fazendo um lanho de todo o tamanho e começando a deitar imenso sangue. Levamo-la a correr para o Hospital de Santa Maria, onde levou vários pontos. Durante todo o tempo, a Maria não chorou, nem quando a coseram. Desde cedo revelou-se uma menina muito corajosa e resiliente a todas as adversidades”, conta o Pai. 
Maria emociona-se um pouco ao relembrar aqueles meses no campo de refugiados e sorri serenamente enquanto reflete sobre o dia da chegada. 

“Não chorei. Mas fiz um esforço muito grande para não chorar. Achei que era a última coisa que eles precisavam que eu fizesse e a última coisa que eu precisava de fazer. Eu cheguei e já havia pessoas a chorar porque é que eu me ia juntar ao choro com a sorte que eu vi que tinha? Senti um vazio enorme porque me apercebi que me faltava qualquer coisa e o que acabou por acontecer é que eles me deram essa qualquer coisa que faltava”. 

No dia a seguir à sua chegada ao campo, começou a trabalhar. Havia muita coisa para fazer. Encontravam-se mais de 800 refugiados no campo num espaço que daria para, no máximo, caberem 450 pessoas. As entradas e saídas de refugiados eram constantes. A Maria e os outros voluntários, que eram apenas mais dois, tinham que ajudar toda a gente que chegava a arranjar um lugar para dormir. “Os húngaros não se importavam se eles ficassem a dormir na rua”.
Forneciam-lhes água, fraldas, shampoo para tomarem banho… Era frequente também terem que levar alguns refugiados ao posto médico. A expressão da Maria endurece ao lembrar-se da maneira como muita gente tratava as pessoas que viviam no campo. Não foram poucos os casos de agressões e injustiças que testemunhou. Muitas vezes negavam-se a tratar dos refugiados que eram levados ao posto médico. “ Levei uma miúda de seis anos porque tinha uma infecção no braço e fecharam-me a porta na cara. Outra vez levei um homem que tinha partido uma costela e mandaram-no embora com um paracetamol. Ficou uma semana com a costela partida e a morrer de dores. É muito triste. As pessoas não são tratadas como seres humanos”. 


A Maria ficou encarregada de organizar as atividades para as crianças. “It was amazing, she would create a very good vibe in the group. And she was a hard worker”, afirmou Friederike, uma voluntária franco-alemã que recentemente vive no Canadá.
Alegrava-a tornar aquelas crianças mais felizes e gostava muito de brincar com elas. Brincavam nos pré-fabricados, ensinava as meninas a pintar as unhas e a fazer penteados, aprendeu a fazer música com pedacinhos de relva e jogava futebol. Implementou também umas aulas de inglês, que permitiram às crianças comunicar um bocadinho melhor entre si. Raramente se ia abaixo quando aparecia um problema e lutava incansavelmente até o resolver. “She tries very hard to think of a solution and not give up even though it could mean some sacrifice”, afirma Charlene Ong, uma voluntária de Singapura.


“You. Beautiful” é o nome do blogue que a Maria criou durante a sua estadia na Hungria. Nele relatava o seu dia-a-dia e as histórias que mais a impactavam. O nome do blogue é bastante original e suscita alguma curiosidade. A Maria sorri com entusiasmo enquanto fala desta ideia, recordando o que se passara há uns meses atrás. No primeiro dia, decidiu fazer uma visita guiada ao campo. Enquanto caminhava deu-se conta que alguém espreitava por trás de uns arbustos. “ Sou muito curiosa e tive que ir ver quem era. Encontrei uma criança Síria de seis anos, a Sahma. Tinha uns olhos verdes enormes e o cabelo muito encaracolado e escuro”. A Maria acabou por conhecer a família da criança e ficou muito ligada a eles. “Comecei a querer aprender algumas palavras em árabe e perguntei à Sahma como é que se dizia ‘beautiful’ porque reparei que eles eram todos muito bonitos”. A partir daquele momento, sempre que se encontravam a Maria cumprimentava-a com um “You beautiful” e ela respondia “No, you beautiful” em árabe. “Foi por causa desta brincadeira que pus esse nome ao meu blogue. Talvez por ter sido a primeira criança que eu conheci e por ainda ter um significado especial para mim”. 


A Maria considera-se uma rapariga romântica e gosta muito de histórias de amor. “É das melhores companheiras para ver filmes românticos!”, afirma a sua amiga Maria. O seu romance preferido é “Cartas para Julieta” no entanto, considera “Amigos improváveis” o melhor de todos os filmes. “É um filme muito claro enquanto aos sentimentos, especialmente em relação à amizade. Mostra que na companhia de um bom amigo, as dificuldades e problemas tornam-se mais fáceis de enfrentar”.


No campo de refugiados, a Maria teve a oportunidade de testemunhar uma verdadeira história de amor, muito dura. Conheceu lá um casal de namorados que vinham do Nepal, com dezoito anos de idade. Fugiram do país porque as famílias deles não aceitavam que se casassem devido à diferença de castas. “Ele era extremamente rico, ela extremamente pobre. A mãe dele e o irmão batiam-lhe a ela muitas vezes, chamavam-lhe nomes e trancavam-na em casa para não poder ver o namorado”. Ele acabou por se revoltar com a situação e propôs-lhe que fugissem e começassem uma vida juntos em algum lado. Foram para a Índia e estiveram lá duas semanas. Conheceram um homem que lhes disse que os levava para a Alemanha em troca de algum dinheiro. E claro… Enganaram-nos. Foram levados para o Iraque e atirados para uma sala cheia de árabes. Contra a sua vontade, meteram-nos nuns camiões que os deixaram no meio do nada. Tiveram que andar a pé durante dois meses e chegaram à Hungria, ao campo de refugiados, onde estiveram durante cinco meses. Neste momento têm casa em Budapeste e ela já trabalha. Cortaram relações com as famílias mas nota-se que é algo que lhes custa muito. “Ela estava a estudar Gestão, ele engenheria. Roubaram-lhe todos os certificados, nem sequer têm um papel que comprove que são do Nepal”. Maria sentiu-se impressionada com a quantidade de pormenores que conseguem ter um com o outro mesmo sem dinheiro e a passar por uma situação tão difícil “ Confiaram -se a vida toda. Lutaram um pelo outro a níveis extremos”. 


O maior sonho da Maria Campos é trabalhar com refugiados. A experiência mostrou - lhe claramente o seu novo objetivo para o futuro. 



“ Quero criar uma ONG para refugiados, uma ONG melhor que todas as outras”. 



Maria Calderón